Opinião de José Valbom: O interior na Cultura

Escrito por José Valbom

A Cultura é traço de união, é língua comum, acervo de vivências, tradições, costumes e crenças, gosto pelo conhecimento, educação da mente, criação artística, preservação da memória e diálogo com os outros.
A Cultura é mão estendida que afaga e liberta.
É ímpeto de liberdade: cada um de nós sente, define e vive a cultura de forma distinta.
A cultura e a criação artística não têm geografia, não têm fronteiras e não têm pátria.
A cultura é maior que qualquer ego que se queira apoderar dela.
O professor Pires Manso lembra-nos que o dia, para quem vive no interior, tem mais duas horas em relação a quem vive na grande cidade, pelo que não seria má ideia utilizar este tempo para a criação e usufruto de bens culturais; um ócio responsável nas palavras de António Arías Rodriguez (1).
O tempo pausado nesta era «da dopamina rápida e das playlists», como diz Capicua, é um bem utópico.
Enquanto mediador e produtor cultural, o Centro Cultural da Guarda deve estudar, recolher, manter e divulgar atividades culturais que reafirmem a nossa identidade, harmonizem o nosso viver coletivo e reforcem o nosso ego. Como refere Eduardo Lourenço, «todos os passados sem memória são tempo de ninguém». Este papel tem sido desempenhado, mas há que continuar, como diz o meu amigo padre Morais, a «ouvir a terra, calcá-la e senti-la».
“À espreita está um grande amor, mas guarda segredo
Vazio tens o teu coração na ponta do medo
Vê como os búzios caíram virados pra norte
Pois eu vou mexer no destino, vou mudar-te a sorte.”
Búzios – Ana Moura
O Centro Cultural de hoje, e de amanhã, deve ainda acolher, acarinhar, incorporar e divulgar manifestações culturais de outras identidades e geografias – por exemplo, dos estudantes dos PALOP do nosso IPG e trabalhadores de outras comunidades.
Deve olhar e ver, ouvir e escutar, as manifestações culturais oriundas de estudantes e trabalhadores imigrantes que neste momento povoam os nossos campos de cultivo e locais de produção indiferenciada, carentes de integração e visibilidade na nossa vida coletiva. A nossa comunidade, se atenta e inclusiva, é, hoje, policromática.
O Centro Cultural da Guarda deve ser polifónico e policromático em termos culturais e deve fazer pedagogia pelo exemplo. Só assim se justifica ser o principal inquilino da Nova Casa da Cultura. Assim, assiste razão a Jaime Cortesão quando diz: «O humanismo cosmopolita é o modo peculiar de ser português», ou, como diria recentemente o musicólogo Rui Vieira Nery «identidade Portuguesa é um mosaico. É feita de diferenças».
A comunidade deve participar ativamente, envolver-se e ensinar aos seus filhos o valor da fruição de atividades culturais.
Os equipamentos e programas culturais executados de forma consistente com qualidade e inovação são fatores diferenciadores das regiões com elevada rentabilidade socioeconómica, verdadeiras âncoras do desenvolvimento. Assim, há que vivenciá-las e fazer delas polos de conhecimentos que ofusquem a interioridade de que tanto nos queixamos.
Nós. Todos nós devemos estar recetivos ao balanço dialético nas nossas vidas entre o estritamente necessário – trabalho e a vida do dia a dia – e a busca incessante do aperfeiçoamento e enriquecimento no plano individual e na vida coletiva de que é parte integrante a produção e usufruto de bens culturais.
Os bens culturais não são, não podem ser, para cada um de nós “uma flor na lapela” de um fato domingueiro. Devem ser uma forma de integrar, ser e estar.
Não se iludam! Não nos deixemos enganar! Porque quanto mais as redes sociais nos envolvem, verdadeira teia de dependência, apelando ao individualismo estéril e à agressividade, mais necessitamos de participar e usufruir de bens culturais enquanto rede de suporte da nossa saúde mental e da harmonia e Bem-Estar coletivo.
O homem é um ser social. A comunhão e partilha de objetivos culturais faz parte do caminho.
Acredito numa cultura em que as raízes são a identidade. O tronco, é uma comunidade plural e exigente, onde os ramos são os artistas e os criadores. Os frutos são alimentos de Bem-Estar e coesão social.
O Centro Cultural da Guarda é, e deve continuar a ser, um pilar da tenda que abriga a comunidade, que deve respirar criatividade e cultura. Uma verdadeira oficina que acolhe, repara e divulga atividades culturais por todos os cantos e recantos do concelho e não só!
Adaptando “Dança de volta”, de Camané.
“Entrei na dança de roda
Mas não cheguei a dançar
Enganei todas as voltas”
Mas deixaram-me ficar

Despeço-me e confesso que já tenho saudades deste “posto de vigia”, continuando a acreditar que o interior não nos determina enquanto o limite da arte e da criatividade for a fronteira do nosso sonho.

(1) – António Arías Rodriguez, Jornal “La Nueva Espanha” – Astúrias 18/10/2025

* Presidente cessante da Assembleia-Geral do Centro Cultural da Guarda

Sobre o autor

José Valbom

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