Opinião de António Ferreira: A Grande Substituição

Escrito por António Ferreira

A extrema-direita defende, nos EUA, em França, na Holanda, em Inglaterra e agora em Portugal a chamada Teoria da Grande Substituição, segundo a qual a população nativa dos países ocidentais está a ser substituída por imigrantes. Estes, com taxas de natalidade muito superiores às nossas, vão inundar com os seus filhos as nossas cidades até ficarem em maioria. Que solução apresentam? Impedir ou limitar drasticamente a vinda de emigrantes, sobretudo vindos de países ou regiões para eles pouco recomendáveis.
Esta teoria tem vários problemas, e o menor nem é a mesquinhez da sua formulação ou os problemas que iria colocar à nossa sociedade e ao nosso tecido económico se vingasse a tese de que devem ser expulsos os milhares de emigrantes que eles acham que estão a mais em Portugal. Sabe-se já que essa tese está errada nos seus pressupostos, como o estaria em França nos anos 60 do século passado se já houvesse quem pensasse assim. Os filhos dos portugueses nunca vieram a substituir os franceses nativos, mesmo considerando os mais de 50 anos que passaram já desde a vaga de emigração para França que tornou Paris a cidade mundial com mais portugueses.
O verdadeiro problema não reside, por isso, na alta natalidade das mulheres imigrantes, mas sim na baixa natalidade das nossas, e se quisermos resolvê-lo temos de perguntar porquê e começar a trabalhar para eliminar as razões. Dou algumas pistas, e creio que mesmo o mais cretino dos adeptos daquela teoria as irá compreender.
Em primeiro lugar, o custo da habitação. É inadmissível que, com centenas de milhares de fogos devolutos, as rendas em Lisboa e no Porto, ou até na Guarda, sejam tão elevadas que um casal jovem despenda mais de 40% do seu orçamento familiar para poder arrendar casa. É também inadmissível que, hoje, um T3 de qualidade média custe mais de €300.000,00, obrigando os mesmos casais jovens a ficar endividados até aos seus 70 anos, condenados durante muitas décadas e até depois da sua reforma a pagar prestações superiores a mil euros mensais.
Em segundo lugar, as consequências da emigração interna dos nossos jovens. Saem do interior para o litoral, em busca de oportunidades que não têm por cá, perdendo no caminho a rede familiar de apoio que os poderia ajudar se pensassem em ter filhos. Quando mesmo assim decidem tê-los, rapidamente descobrem que, não tendo avós para cuidarem deles (e ainda seria preciso que estes estivessem disponíveis), lhes restam creches particulares a €600,00, €800,00, €1.000,00 mensais, às quais terão de recorrer pela falta de uma rede pública.
Em terceiro lugar, os baixos salários. É admissível que um casal de jovens licenciados receba no seu conjunto menos de €2.000,00 líquidos por mês? Como querem que eles comprem ou arrendem uma casa decente, paguem as suas despesas mensais e ainda tenham coragem para ter filhos?
Com o país que temos, com estas políticas ou falta delas de incentivos à natalidade, sem uma rede pública decente de creches, sem uma política de habitação pública e de uma economia que proteja mais os trabalhadores do que as empresas, vamos continuar a envelhecer como sociedade e a precisar cada vez mais de imigrantes que possam suprir a nossa falta de trabalhadores.
Não vejo, infelizmente, que seja esse o caminho que o país está a tomar. As prioridades são outras, como se viu na lei que proíbe as burqas, no próximo pacote laboral, e no incentivo dado pelo governo à especulação imobiliária. Substituição? Sim, destas políticas por outras.

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