Uma centena que fazem (tanta) falta!

Escrito por Carlos Cortes

Dos 1.280 anestesiologistas a exercerem no Serviço Nacional de Saúde (SNS), somente 225 estão colocados nas instituições hospitalares da região Centro.
Apesar da sua dimensão, estes números são muito insuficientes para as necessidades dos cuidados de saúde, uma vez que seriam necessários mais 541, dos quais 100 só para a região centro do país.
A região Centro tem um “ratio” de 10 anestesiologistas por 100 mil habitantes, valor semelhante ao encontrado nos Açores e abaixo do “ratio” nacional de 12,4. Números que refletem o Censos de Anestesiologia de 2017 e que, provavelmente, ainda serão inferiores àquelas que são as reais necessidades das unidades de saúde da região Centro.
No distrito da Guarda o ratio é comparável à situação da região: 10,3 anestesiologistas por 100 mil habitantes, segundo as estimativas populacionais do Instituto Nacional de Estatística. Acresce a esta situação uma carência grave de especialistas das áreas cirúrgicas, tais como a Ortopedia ou a Cirurgia, cujo impacto se reflete com maior visibilidade no serviço de Urgência e na espera para cirurgia.
A falta de recursos humanos tem um impacto grave e direto sobre os doentes, traduzindo-se, sobretudo, no atraso das cirurgias, no aumento da lista de espera cirúrgica e no desespero de doentes e profissionais. Nalguns hospitais chegam a ser canceladas perto de 30% das cirurgias, outros nem sequer arriscam a fazer a marcação.
Ora, porque dizemos que os anestesiologistas são o pilar dos cuidados de saúde nos hospitais?
Atualmente, o anestesiologista deixou de ser somente um anestesista que atua sobretudo no bloco operatório. Além dessa presença indispensável e insubstituível (antes, durante e depois de cada cirurgia), o anestesiologista tem uma presença diversificada na atividade hospitalar e extra-hospitalar. Na medicina de Urgência e na emergência pré-hospitalar esta especialidade tem sido merecedora de um importante destaque.
As unidades e serviços de cuidados intensivos só conseguem, hoje, manter a sua atividade com o importante contributo do anestesiologista. As consultas da dor foram desenvolvidas e são asseguradas por anestesiologistas integrados em equipas multidisciplinares (tanto na dor crónica, como na dor aguda). Finalmente, estes especialistas também estão presentes na analgesia em múltiplos procedimentos, tanto na área dos exames de diagnóstico como na ajuda aos partos.
É, pois, fácil percebermos a importância da anestesiologia em várias áreas da medicina e no seu importante apoio a todas as especialidades cirúrgicas. O SN S perdeu muita da sua capacidade de atração destes profissionais, numa competição desigual com o setor privado, sendo um dos fatores decisivos para esta realidade a péssima gestão dos recursos humanos. Gestão, essa, que se traduz numa diferenciação negativa na abertura de vagas para colocação de especialistas a nível nacional. Nesta matéria, a região Centro é inexplicável e injustamente tratada criando uma iniquidade inaceitável.
Será que a nova equipa ministerial vai continuar a demonstrar a mesma indiferença pela região Centro e pelo distrito da Guarda tal como as suas antecessoras?

* Presidente da Secção Regional do Centro da Ordem dos Médicos

Sobre o autor

Carlos Cortes

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