Opinião de José Valbom: Carta a Manuel Lopes

Escrito por José Valbom

Conheci-te no “Público”, de 2 de agosto, pela pena de Manuel Carvalho e câmara de Adriano Miranda.
Fiquei teu amigo.
Estavas no meio do fumo, brasas e terra queimada. A serra amarela está negra. Negra como o breu.
Homem sem sono.
Até os animais atordoados vagueiam pela serra.
«Hão-de vir», diz o Tiago.
«Preocupado», mas firme e corajoso.
Antes partir que torcer, dizemos nestes 4/5 do país.
Sempre o mesmo fado!
Limitações e condicionalismos do Parque – Parque Nacional Peneda Gerês – no vosso caso.
Da prevenção (condicionalismos à limpeza dos caminhos) ao combate (interdição ao fogo controlado).
Esquecem (claro, sabem tudo!) o que dizes: «o terreno é que manda».
Resta-te o ombro amigo do Paulino Leal, que, nos seus 81 anos, te garante: «Estou de sentinela (desde as 5 da manhã) não vá o fogo aparecer outra vez».
O Paulino e todos: «Esta herança do isolamento faz com que os habitantes de Ermida, homens e mulheres, sintam que a defesa do seu património seja em primeiro lugar uma responsabilidade deles».
Responsabilidade (dever ético) que te levou a avançar: «Quando não te queriam deixar passar na estrada com sacos de farinha para o gado; e quando te quiseram confinar (bela palavra para o centralismo) a um ponto de fuga. Disseste – lembra-o aos teus netos –: “prendam-me daqui a oito dias que agora tenho que ir para o mato apagar o fogo”».
E agora?!
Agora que «as televisões foram finalmente embora» e o centralismo está a banhos, «quando vier um bocado de chuva vai voltar a haver erva nos pastos».
Agora, como sintetiza o jornalista: «Daqui a uns anos, quando a serra amarela recuperar o seu coberto vegetal, é provável que tudo se repita».
Não sei.
Nunca saberemos o que seria o nosso país, como estariam as nossas terras, se, por exemplo um terço, apenas terço, do PRR fosse disponibilizado para construir barragens e planos de irrigação.
Também não sabem, nem lhes interessa nada, as gentes de “Lisboa” e aparentados.
2017 (Pedrógão), 2022 (Serra da Estrela), 2025 (Serra Amarela), etc.
A mesma gente, a mesma distância.
A mesma sina!

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José Valbom

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