A intimidade difícil não é no sexo. A intimidade é a que temos com quem tomamos banho, com quem adormecemos e acordamos e partilhamos os sons do corpo, as “tripas que dão horas”, as eructações depois de comer, os malditos gases, que sempre existem. O corpo sem os sons do lençol, ou a escova de dentes, ou a higiene das “partes”, enchia-se de cheiros e de sujidade que nos afastariam. No entanto, temos nojo das excreções e das secreções e fugimos das fezes e da urina. Nascemos entre as duas, mas depois parece que ambas nos enojam. E, de facto, não são atraentes. Também não é lindo um parto. As púdicas rejeições que todos tendemos em ter pelo que sai dos corpos. O corpo é uma fábrica de excreções. Os prazeres que recebe terminam em dejetos, suor, ranho e urina. Incapazes de os limpar de modo autónomo, há tanta gente que carece de cuidadores e não os há. Também muitos cuidadores fogem da higiene bem feita por nojo e por má relação com as excreções e secreções. Também há púdicos muros entre os velhos e as mãos dos filhos que os devem cuidar. E há assim mais escaras e mais doenças. A realidade do cidadão que é limitado no autocuidado é uma tragédia antiga exacerbada no tempo contemporâneo. Como cuidamos dos nossos?


