Falo-vos de um lugar que não conhecem. Lugar com gente – muito pouca e desconhecida – por isso o “evacuaram”.
Não vale uma paragem dos bombeiros nesta nova função de pastorear o fogo de aldeia em aldeia, por montes e vales montando guarda (quando conseguem) aos aglomerados populacionais. A voz de mando (que deixou de ser de comando, nas palavras do professor Carvalho Rodrigues (1)), diz na sua nova doutrina: evitar perdas humanas, não gastar uma gota de água em qualquer ponto de espaço rural. O essencial não é apagar o fogo, é conduzi-lo evitando perdas humanas. A dimensão crescente do fogo, se não for hoje será amanhã, vai dar-lhes razão!
Lamentamos, como lamentamos, que até neste ponto tenham falhado! Falhou, assim, o essencial – a segurança das pessoas!
Da segurança de bens e do território o Estado desistiu há muito tempo, em quatro quintos do país.
Após cada vaga de incêndios temos a sensação de que ficamos a salvo. Falso. O fogo vai voltar outra vez.
“Não precisa de candeia o que está à vista”, diz o povo. Pedrógão demonstra-o. Ainda não levantámos o luto de 2017 e arde novamente.
Assim chegamos ao fim do verão. Este, o anterior, e também o próximo: o Interior em Cinzas. Continua, qual fado que nos anestesia, a “ Eutanásia Social do Interior” (1).
Persiste o lugar – Bacelos – e a sua residente desamparada, a vaguear pelas redondezas, após a ordem de evacuação. A residente Leal. Leal de seu nome e de facto, quando pelas duas horas da manha do dia 18/08/2025, mendiga apoio para o seu lugar e a sua casa. Encontra o que, com ela, persiste – os vizinhos e as juntas de freguesias. No caso: João Antão, Santana D’Azinha e Arrifana. Em comunhão salvam a residência e o lugar.
Lugar na aceção do Geografo Carlos Cupeto (2). Lugar enquanto local onde tudo começa e tudo se pode regenerar. Espaço que alimenta e nos sustenta com ar, terra e água. A velocidade na cidade, correndo atrás da cauda, não nos deixa ver, quanto mais olhar e muito menos sentir.
Zombam dos sotaques da terra, dos sabores do território e dos gestos do quotidiano.
Mas, poucos o sabemos, o lugar continua a murmurar.
Quando, como diz o Geografo, “voltarmos a caminhar devagar, a meter as mãos na terra, escutar o silêncio de uma tarde quente o território volta a falar”.
O Lugar, não duvidem, sussurra, ensina e pede cuidado.
É aí, que começa e acaba (digo eu) a verdadeira e única transição ecológica.
Conhecem outro caminho?
Por que persistimos em contramão?
P.S. Adolfo Santos, Carlos Dâmaso, Daniel Agrelo e Daniel Esteves – a mesma causa de morte: Abandono do Interior. Mais um passo nesta caminhada da Eutanásia Social do Interior.
José Valbom


