Aldeia da roupa branca

Texto com sabor a férias, pele bronzeada, gente gira, Gin e música, muita música

Há analogias que se podem procurar só pela denominação comum, sem que realmente o conteúdo se assemelhe. É o caso do filme “Aldeia da roupa branca”, que retrata as lavadeiras da roupa suja de Lisboa lavada nos arrabaldes… A roupa suja de Lisboa, onde a vida é boa, mas que pode assumir várias leituras. Na realidade é em Lisboa que tudo acontece, é por lá que se instalam os Institutos do Estado, as Entidades Reguladoras, as Secretarias de Estado e Ministérios e é óbvio que é por lá que se instalam as sedes das grandes empresas nacionais e internacionais, exceto algumas que tendo sede na serra, onde nasce a água, com ela tudo leva até à capital.
É em Lisboa que a central de compras do Estado compra mais de 80% dos bens e serviços que depois distribui pelo país. Onde se compram os computadores, as impressoras, as resmas de papel, utilizadas nos serviços públicos na Guarda? Nada melhor que uma Central de Compras para melhor gerir os dinheiros públicos, esmagando o preço da coisa e desvalorizando e secando a economia local. Tudo em nome da rentabilidade. Essa central de compras gera postos de trabalho, exatamente em… Lisboa. Os nossos governantes e deputados que estão de braço dado com a descentralização gritam em uníssono e a uma só voz, todos somos tugas, todos temos os mesmos direitos. Quem não recorda a demonstração de boa vontade do lisboeta António Costa quando se comprometeu, de forma irrevogável, a transferir o Infarmed para o Porto porque, na ótica do poder central lisboeta, o Porto também é interior ostracizado e sofre dos mesmos males, tudo porque o país é a capital. Mas para levar estas decisões a bom porto é preciso mais do que boa vontade e político que é político e ministro recua e avança, feliz e contente mesmo que seja em marcha atrás.
E as gentes do Porto, que sempre acharam que são terra desprotegida igualzinha às das serras, ficam ofendidas e em postura guerreira sempre que os de Lisboa prometem e não cumprem.
E dessa vez foi-lhes prometido a Agência Europeia de Medicamento e a entidade portuguesa para a farmácia e medicamento. Promessas leva-os o vento. Já passou, já ninguém se recorda. Resta-lhes a certeza de ficarem durante 25 anos com a obra de Miró, que era do BPN e que o Passos Coelho quase vendeu em leilão no estrangeiro. A obra de Miró foi um golpe de sorte ou uma série de acasos e até de distrações que a levou para Serralves e consequentemente para o Porto, mas a decisão de por ali ficar 25 anos partiu de Lisboa. Lisboa dá com uma mão o que tira com duas.
Porque a vida do país está presa em Lisboa, porque só lá é que os deputados entram nos computadores uns dos outros e trocam entre eles a palavra passe, porque só em Lisboa se podia passar o que a fotonovela do roubo de Tancos teve de pior, ou a queda do BES, ou as novelas do Banco de Portugal, ou a distribuição de prémios aos brilhantes gestores de prejuízos da TAP, ou as maternidades que fecharão no Verão (dando a entender que provavelmente não serão necessárias no Inverno) e tudo o mais que se possam lembrar acontecerá só em Lisboa, porque por lá a vida é boa.
Por isso as lavadeiras têm muito que lavar até a roupa suja ficar branca, tão branca que mais branco não há.
Quando falo em roupa branca prefiro lembrar o homem das maravilhosas batatas fritas que só apareciam no Verão, crocantes e de sabor salgado igualzinho ao do mar, e que eu esperava ansioso entre cada mergulho de água e areia. Mordiscavam-se primeiro até que se deixavam vencer pela ação devastadora da saliva. Outra figura que chegava no Verão era o Sr. Miguel Vilaverde, de quem se dizia ter sangue azul. Sentava-se ainda cedo na esplanada e ali permanecia, numa pose em que segurava o jornal “O Século” de braços bem esticados, de forma a evitar sujar a camisa larga de linho branco que fazia conjunto com as calças albas à boca de sino, terminando com um sapato branco. Outras figuras dignas de um filme de Fellini por ali circulavam ou não estivéssemos nos anos 60. Não havia dúvida que o Verão chegara, até o Zé que nos vendia o gelado naqueles cones de bolacha que deixavam no ar um cheiro a baunilha, era de branco que se vestia. Ano após ano, Verão após Verão, todas estas e outras personagens se vestiam de branco a anunciar o Verão. Eu próprio depois de adquirir o tom de pele no ponto certo, adorava vestir camisa branca, mas as calças, para não romper com a monotonia e tradição, sempre foram azuis.
Nunca gostei de me vestir a uma só cor, assim como não gos,to de festas monotemáticas ou monocromáticas de roupa, seja ela branca, azul, laranja ou verde, muito menos gosto de reações do tipo “se não vais é porque não estás com a ordem unida”, ou “afinal, criticas criticas mas vieste”.
Tudo é possível em festas organizadas pelo aparelho… camarário é claro, desde a evocação pseudo histórica, a morte do galo, passando por outros eventos do calendário, as feiras e, claro, a Noite Branca. Sempre em prol da economia local e tendo em vista coletar o máximo de forasteiros atraídos por outro branco que não o da neve, porque essa de tão rara há de um dia fazer parte das lendas. Outros brancos existem. Tudo organizado a preceito, de forma profissional, por gente de fora como convém, quando se pretende incrementar a economia local com anúncio na rádio e na TV.
O 2020 que financia empresas e inovação já aprovou muitos milhões para projetos de Braga a Bragança, passando pelo Porto, Aveiro e Évora… Empresas que vão dos componentes automóveis, passando pelo papel e turismo, terminando nos aviões… Para quem aposta num “cluster” automóvel na Guarda precisaria de estar no top dos financiamentos, mas não, na zona Centro, onde o apoio comunitário atinge os 1.378 milhões de euros, ocupamos a posição 15 numa lista de 18, encontrando atrás do nosso concelho, em relação ao investimento elegível e ao apoio comunitário, Oliveira do Bairro, Anadia e Fundão. Só para que conste os concelhos que ocupam os três primeiros lugares são Leiria, Coimbra e Aveiro*.
Enquanto uns se satisfazem com pequenos projetos engavetados desde há muito, ou com a chegada de uma qualquer locomotiva a uma qualquer rotunda, ou com umas alegrias monocromáticas em noite de Verão, outros chamam a si projetos que captam dinheiro, tecnologia e muito emprego diferenciado.
As festas, essas, correm sempre bem, uns queixam-se da ressaca, outros queixam-se porque gostam de se queixar, outros não se queixaram mas ficaram queixosos, outros queixam-se do frio e outros simplesmente porque a roupa branca atrai mais a sujidade e as manchas de suores são mais visíveis, outros ainda porque ficaram com soluços.
E depois há ainda a considerar a roupa suja que se lava e torna a lavar destilando veneno por todos os poros, e a roupa velha que me agrada muito mais, porque me puxa as memórias do dia seguinte em que se reciclavam as sobras das festividades, dando lugar a um repasto magnífico.
Recordar-se-á o leitor que este texto começou com o título de um filme português do tempo em que a cor se imaginava a partir dos cinzentos. Cinzentos também da cor das nuvens que se adivinham no horizonte. Resta-nos mesmo a aldeia da roupa branca para viver e festejar.
Reciclar, baralhar e tornar a dar, com papas e bolos se enganam os tolos e estratégia procura-se, seriam palavras-chave deste texto.

* Médico
(*) Fonte: centro.portugal2020.pt 31/5/2019

Sobre o autor

João Santiago Correia

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