Ainda “Roma”

Escrito por Fidélia Pissarra

No ecrã da televisão, a limpidez da água a revoltear sobre o xadrez de um corredor de que não se via início ou fim. A cadência do baldear, com que alguém acaba com a sujidade já esfregada do chão, demora-se nos sentidos até percebermos que não nos adianta de nada esperar destino diferente do dos quadrados submergidos no preto e branco. Assim escolheu o realizador apresentar-nos talvez a mais mãe das três que preencherão as suas memórias de infância, Cleo.
Memórias de uma maternidade tripartida, compartilhada pela avó, personagem secundária, mas incontornável na dinâmica familiar, pela mãe biológica, cuja presença é inabalável, mesmo depois de o marido a ter trocado por outra e por Cleo, que quase foi mãe, depois de já ser quase mãe dos filhos de outra. Quase mãe de um nado morto, porque haveria de arriscar a própria vida para resgatar, de outras ondas, um desses filhos. Quase mãe que teria de continuar a contar histórias para adormecer as crianças da casa e a acordá-las para irem à escola. Quase mãe cheia de medo que já não a quisessem se se descobrisse que o ia ser de filho próprio e só seu, porque, à semelhança do que a mãe dos seus meninos (“mis niños”) importou para o pai, também ao pai do seu importava nada. Só que, reféns de um instinto nunca aprendido pelos homens, estas mulheres, ao contrário da Joana da “Notícia de Jornal” de Chico Buarque, não atentaram contra a existência e voltaram ao seu lar. Sem qualquer inexatidão da “notícia” como a sociedade do bairro mexicano Roma requeria nos idos anos setenta. Sem qualquer inexatidão como a sociedade dos nossos dias continua a requerer.
Enfadar-se com rotinas e lides domésticas, como ter comida na despensa, meias lavadas na gaveta e criançada a tempo e horas na escola, continua a ser prerrogativa de maridos sempre excessivamente atarefados com ocupações profissionais. Mulheres que se lembrem de enfadar com as mesmas coisas auto condenam-se a ser procrastinadas. Aceita-se que um novo amor do marido acabe com o lar como uma “coisa que acontece”. A mulher que se livre de tal coisa lhe acontecer. Mais do que à fúria de línguas viperinas, corre o risco de se expor à fúria do homem “abandonado” e à concupiscência dos seus congéneres, o que é muito pior e perigoso.
Entre dois dedos diários de conversa, mesmo que da treta, e três copos, qualquer pessoa – que seja homem – consegue fechar um negócio, ascender na carreira ou promover-se politicamente até chegar a presidente de uma qualquer autarquia. Se a mulher ambicionar o mesmo terá de, no mínimo, tirar três mestrados, um doutoramento e abster-se de procriar. Pior do que estas desvantagens com que as mulheres se confrontam no dia a dia só terem o azar de sofrerem um ataque cardíaco. Médicos e afins tendem a desvalorizar as queixas das mulheres tanto como os vendedores de automóveis os seus conhecimentos de mecânica.
No corredor da casa classe média alta do bairro mexicano de Roma, depois do despejar dos baldes de água no esfregar dos mosaicos, só o praguejar do homem perante as fezes que, entretanto, o cão aí voltara a depositar e os dias de chuva sobressaiam do destino de Cleo. De extraordinário, teve apenas o sol a que estendia a roupa a secar no terraço.

Sobre o autor

Fidélia Pissarra

Deixar uma resposta