A má sorte do interior

Escrito por António Ferreira

Américo Rodrigues vai ser o novo diretor-geral das Artes. O cargo cabe-lhe bem e a sua nomeação é uma forma esplêndida de se lhe fazer justiça, depois dos vexames a que foi sujeito na Guarda nos últimos anos. É também uma vergonha e uma derrota pessoal para os autores desses vexames, que veem agora exposta a sua mesquinhez e a sua estreiteza de vistas. É finalmente a continuação da desgraça da nossa região, que vê fugirem-lhe muitos dos mais qualificados para destinos onde lhes reconhecem o valor, desiludidos com a forma como são aqui tratados e conscientes de que por cá de pouco adiantam as suas qualidades.
O Américo é apenas um dos muitos que foram embora nos últimos anos, acelerando o despovoamento da região. Outros irão embora também e muitos sonham em partir, mais tarde ou mais cedo. Eu próprio escrevo de Lisboa, onde tenho agora um escritório onde venho periodicamente. Outros fazem o mesmo. A razão é a de sempre: o interior é desprezado pelo poder central, as empresas e as pessoas vão-se embora e os que ficam definham. Deixa de haver massa crítica e o mercado passa a ser curto. Dizia alguém há dias que há zonas do país com um PIB per capita equivalente à França, mas outras em que o termo de comparação é a Roménia. Essa assimetria tem de ser combatida urgentemente, e com políticas muito mais agressivas do que as atuais, seja em Lisboa ou no interior.
Como escrevia António Barreto no “Público”, na semana passada, não se trata apenas de uma questão de despovoamento, mas também da eliminação ou encerramento de serviços públicos. Todos esses encerramentos podem justificar-se individualmente, por critérios económicos aparentemente indiscutíveis, mas no seu conjunto têm um efeito devastador e a prazo irreversível. A mensagem que se transmite com esses encerramentos é o abandono de uma região e esse abandono pelas instituições, aliado à partida de pessoas e empresas, terá como resultado mais encerramentos e mais partidas.
É claro que se fala em medidas para o interior, começando (e terminando) por incentivos fiscais. Mas nada de muito significativo foi aprovado no último Orçamento Geral do Estado, as portagens mantêm-se e continua a falar-se de encerramentos de postos de correio, de serviços médicos, de escolas, de agências bancárias. Claro que há eventos e rotundas! Mas ninguém se vem fixar na Guarda para poder ir à Feira Farta e ninguém deixa de se ir embora por saudades da iluminação da Rua Direita ou pela beleza da rotunda da Dorna.
É também muito grave haver desconfiança dos agentes económicos relativamente à capacidade dos nossos governantes, em casos como, por exemplo, o do Américo Rodrigues. Se na Câmara da Guarda foram incapazes de reconhecer o seu mérito e foram correndo com ele do TMG para a Câmara, da Câmara para a Biblioteca Municipal e daqui para onde não se sabe bem onde, a fazer não se sabe bem o quê, que credibilidade tem a autarquia na escolha do melhor concorrente para um concurso, na avaliação de propostas, na tomada de decisões importantes?

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António Ferreira

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