Para além das barreiras da interioridade

1. Na semana passada (sexta-feira) foram votadas na Assembleia da República seis projetos de resolução apresentados pela CDU e BE com recomendações de abolição das portagens nas ex-Scut, nomeadamente nas A23 e A25. O ruído das redes sociais, como sempre espúrio e desinformado, a que se juntaram os comunicados partidários, nomeadamente do PS local, conduziu à rápida conclusão de que o que estava em causa era a votação de uma decisão de abolição das portagens. Não era. Era uma recomendação. Mas era uma recomendação relevante, que podia fazer caminho. E o PSD, em especial os deputados eleitos pelo interior do país, perdeu uma oportunidade de iniciar a reversão das portagens nas autoestradas que atravessam a região. É verdade que o PS fez uma gincana (com os deputados da Guarda, por exemplo, a votarem pela abolição das portagens na A23 mas a defenderem a sua manutenção em vias portajadas que atravessam outros distritos; e com os deputados socialistas desses distritos a defenderem a recomendação de abolição nos respetivos distritos, mas a defenderem a manutenção das portagens na A23 ou na A25), mas a verdade é que, politicamente, sendo certo que nada muda apesar da posição dos socialistas – que governam com o apoio dos autores das recomendações (CDU e BE) e podiam ter escolhido a abolição das portagens na aprovação do Orçamento de Estado – os deputados do PS podem dizer que votaram pela região enquanto os do PSD escolheram abster-se.

2. Precisamente no mesmo dia (sexta-feira) era revelada a nomeação de Américo Rodrigues para diretor-geral das Artes. Uma notícia que mereceu o aplauso generalizado, mesmo dos que sempre estiveram do lado contrário do animador cultural. Ainda bem. Porque, como escreveu Saramago, se o silêncio é o melhor aplauso (e alguns deviam ter ficado calados), felicitar os que pelo mérito conquistam uma dimensão superior é uma prova de respeito pela grandeza dos eleitos. Recorde-se que Américo Rodrigues foi diretor do Teatro Municipal da Guarda de que foi demitido de forma abrupta por Álvaro Amaro; foi diretor da Biblioteca Municipal Eduardo Lourenço de que seria afastado; era atualmente técnico de cultura no pelouro da Educação cujo desempenho era sempre de denegação das suas capacidades. Estranhamente, Américo Rodrigues que agora foi reconhecido ao mais alto nível para dirigir as artes em Portugal não foi tido nem achado para sequer opinar sobre a candidatura da Guarda a Capital Europeia da Cultura – um desprezo inexplicável ao mais proeminente criador cultural da cidade. Na Guarda promovem-se os oportunistas e ostracizam-se os mais capazes.
Nota pessoal: Conheci o Américo na Casa da Cultura do FAOJ, da Guarda, nos alvores dos oitenta. Eu, adolescente curioso, ele auspicioso animador cultural. Entre cursos de jornalismo, poesia, teatro ou fotografia, aquela era uma casa onde os mais jovens pudemos aprender de tudo. Com o Américo e com todos os que ali trabalhavam. Com ele colaborei no “Projecto”, um pequeno jornal cheio de aspirações na afirmação rebelde dos jovens da cidade – e também com o Jorge Barreto Xavier, outro amigo que frequentava aquela “casa” e foi diretor-geral das Artes e depois secretário de Estado da Cultura. Sempre por «terreno difícil», o agora nomeado diretor-geral das Artes foi o promotor da agitação cultural da Guarda no final do século passado – que vivi com irrepetível prazer, da intensidade artística no Torrão ao teatro e concertos no “armazém de adubos para todas as culturas do Barracão”, passando pelo teatro noturno, encosta abaixo, num pinhal da aldeia de Quarta-feira (Sabugal) ou da festa de cultura no “cabo do mundo” em Vila Soeiro (Guarda). Nos tempos do “Mondego”, bebemos cevada enquanto polemizávamos sobre o status quo de uma cidade tão sacerdotal e cinzenta. Tivemos muitas divergências de opinião e criticámo-nos mutuamente em muitas situações. Mas, muito para além das diferenças de opinião, sempre soubemos valorizar o mérito e o que de mais positivo podíamos fazer. Muito para além da admiração e da amizade, não duvido que o Américo vai desempenhar com grandeza e qualidade a direção de um sector tão sensível e controverso. Programador intransigente, nunca tergiversou no seu percurso. A DGArtes está bem entregue.

Sobre o autor

Luís Baptista-Martins

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