Idealistas e materialistas

Escrito por António Costa

A ciência nunca se encontra à margem dos conflitos existentes na sociedade em que se desenvolve.
Apesar de não ser habitual olhar, com algum cuidado, para a análise da forma como os conflitos políticos progridem nos laboratórios é, sem dúvida, interessante fazê-lo.
Na introdução da sua obra, “A Origem da Vida”, Oparin analisa a situação da questão da origem da vida até aos inícios do século XX e realça que o tema foi palco do confronto entre duas filosofias irreconciliáveis: o idealismo e o materialismo. Defende também que, na altura em que escreveu o livro, a dita controvérsia não tinha esmorecido, muito pelo contrário, havia adquirido um vigor renovado. Refere que isso se deveu à incapacidade de encontrar uma solução racional e científica para o problema da origem da vida, demonstrada pelas ciências naturais da época, as mesmas que noutros campos tinham atingido êxitos retumbantes. Esta estagnação era, segundo Oparin, proporcional à teimosia que imperou até à segunda metade do século XIX ao continuar a basear-se no princípio da geração espontânea, ou seja, “de acordo com o princípio segundo o qual os seres vivos podiam gerar-se não apenas a partir dos seus semelhantes, mas também de uma forma primária, subitamente, a partir de objetos pertencentes à natureza inorgânica, e dispondo, além disso, desde o primeiro instante, de uma organização complexa e perfeitamente acabada”.
Na defesa deste ponto, tanto os idealistas como os materialistas estavam de acordo, discordando apenas em torno da questão das causas. Assim, enquanto os primeiros viam os seres vivos como resultado da ação das forças anímicas supra materiais graças à vontade divina, os naturalistas e os filósofos materialistas partiam da ideia de que todo o Universo restante era de natureza material, não sendo necessária a existência de qualquer princípio espiritual para explicar a vida.
Oparin acrescenta que «como a geração espontânea era um facto autoevidente para a maioria deles, a questão limitava-se na interpretação deste último fenómeno como o resultado de leis naturais, rejeitando toda e qualquer intromissão por parte das forças sobrenaturais. E acreditavam que a forma correta de resolver a questão da origem da vida consistia em estudar, recorrendo a todos os meios ao alcance da ciência, os casos de geração espontânea do meio material e os induzidos experimentalmente».
A dialética entre os materialistas e idealistas marcou durante bastantes décadas o modo de pensar em ciência.

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António Costa

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