Memórias de 30 anos de vilanagem

A segurança social tem de viver dos contributos de todos ou deixa de ser funcional, definha e acaba. Existiram sistemas contributivos particulares na Previdência, nos Bancários, nos CTT, que foram sendo destruídos por governos do PSD e PS. Lembro Manuela Ferreira Leite e depois o governo de José Sócrates, todos metendo mão naquilo que nunca tinham ajudado a construir. Todos os beneficiários desses sistemas foram incorporados na Segurança Social, mas delapidado o fundo de garantia que mantinha esses paralelismos. Depois recordo obras faraónicas de investimento público que estão em estádios de futebol, em piscinas municipais, em teatros municipais, em estradas, etc. O problema foi quando se descobriu que para funcionarem tinham de ter gente dentro. Gente custa dinheiro, e gente tem contributos sociais. Depois descobriram que manter as obras obrigava a gastos permanentes, com luz, com água, com arranjos. Depois perceberam que o dinheiro não era infinito. Começou a época dos cortes. Havia que reduzir, pois não tinham mais nos bolsos para dar e as reservas estavam exauridas. Entretanto tinham distribuído por correligionários obras e proventos, tinham empregue amigos e famílias inteiras, tinham prometido carreiras e títulos de doutor, tinham aderido ao consórcio de Bolonha, tinham garantido votos com aumentos improváveis, tinham acariciado os pobres com sonhos milionários. Agora os agraciados com promessas pediam os pagamentos, a chuva de garantias, a certeza da dádiva e com 20 anos de espera vinha azedume, náusea e frontalidade. A recusa de tanta benesse tinha de estoirar em chutos e pontapés.
O Estado passou a poupar na qualidade, a construir protocolos rigorosos de gestão, a comprar o mais barato, a concertar com o inadequado, a não trazer mais ninguém para os seus braços outrora longos. Assim descobrimos instituições envelhecidas, pessoas desmotivadas, salários estagnados. Também as décadas de fartar vilanagem aos amigos e aos sacristãos construíram trabalho igual com salários diametralmente opostos. Gente que recebia 10 euros por hora e outros que, perto da reforma, mamavam 36 euros/ hora. Mais sem vontade, mais fugas para o absentismo e a ineficiência.
A casa de Alice estava pintada por fora, mas não tinha teto nem janela. Alice não tinha rendimentos para pagar a casa que comprou por devaneio e deslumbramento. Deixou-se levar por materiais de terceira, serviços subcontratados a vilões, abriu a porta a promessas, enganou muitos enquanto pode, mas um dia… Foi assim que Alice morreu de frio.

Sobre o autor

Diogo Cabrita

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