Uma questão de confiança

Escrito por António Ferreira

Circula nas redes sociais uma piada mais ou menos assim: “O tipo que me vende a bica a um euro anda a explorar-me e decidi por isso aplicar-lhe uma tarifa de 50%; agora a bica custa um euro e meio. Agora é que o lixei bem!” Não se resume a esta piada a história das tarifas alfandegárias de Trump, mas não anda longe.
O que Trump pretendia era fazer regressar à América as indústrias que emigraram para a China em busca de salários mais baixos e o método que encontrou para isso foi encarecer tanto as importações nos Estados Unidos que passasse a compensar mais fabricá-las ali do que comprá-las no estrangeiro. Por outro lado, com as tarifas quis aplicar um castigo aos países que vendem mais aos Estados Unidos do que compram e levá-los a negociar de forma a equilibrar a balança comercial.
O plano tem tantas falhas que só pode ter passado à execução por ninguém ter a coragem de lhe contar a verdade. Em primeiro lugar, ninguém aplica tarifas injustas aos produtos americanos: a triste verdade é que, fora os iPhone (fabricados na China), não têm para nos vender nada que se não encontre melhor e mais barato noutros lados. Depois, nenhum governo, pelo menos de num país livre, pode obrigar os seus cidadãos a comprar produtos americanos de modo a equilibrar a balança comercial. Acontece é o contrário e eu, por exemplo, jurei a mim mesmo que nunca mais compraria nozes ou amêndoas americanas ou qualquer outro produto vindo daquele lado do Atlântico. Muitos mais fizeram a mesma jura e as balanças comerciais irão agravar-se em prejuízo da América.
As eleições de meio mandato (“mid term elections”) vão acontecer em finais do ano que vem e espera-se um redesenhar do congresso norte-americano. Trump, em roda livre, entregue a si próprio e à sua imensa ignorância, vai acumular asneiras atrás de asneiras. A expulsão dos imigrantes vai provocar falta de mão-de-obra, as tarifas vão trazer inflação, o ataque aos aliados tradicionais vai isolar a América, o ataque às universidades vai provocar uma fuga de talentos, o despedimento de milhares de funcionários públicos e o corte aos orçamentos de departamentos essenciais vai paralisar o funcionamento do Estado. Muitos daqueles que eram a base de apoio de Trump vão sofrer na pele as suas políticas e quem vai ser castigado são os senadores e congressistas republicanos. Por isso, pensarão muitos investidores, não será melhor esperar pelas eleições do ano que vem, em lugar de me precipitar a construir uma fábrica na América?
Há aqui também uma questão de confiança, algo de que se tem falado muito em Portugal a propósito da nossa imprevisibilidade fiscal. Quando alguém investe milhões num país, quer ter a certeza de que o seu investimento é seguro. Os planos de negócios contam com números certos, previsíveis, em termos de política fiscal e alfandegária, de mão-de-obra disponível, de fluxos de mercadorias e matérias-primas. Ninguém investe em países em que as regras do jogo podem mudar de um dia para o outro e as decisões de quem manda se parecem mais com caprichos de um louco, em vez de serem o resultado de uma ponderação cuidada e esclarecida.
É o que se ganha votando em imbecis. A única coisa boa de tudo isto é podermos aprender alguma coisa com os erros dos outros, mas, infelizmente, e como dizem na América, nasce um tolo em cada minuto.

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António Ferreira

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