Um dueto autodenominado Anjos, composto por dois irmãos com apelido Rosado, poderia muito bem ser designado por Anjos Rosados. Não o farei, porque são cantores sensíveis, que derretem ao encosto de um beijo e fervem ao toque de uma graçola. Nunca se sabe se uma tal designação lhes poderia causar qualquer coisa próxima de serem excomungados do seio do Catolicismo, que como se sabe, tem aversão a vermelhidões. Não quero ser eu o causador de tanto sofrimento, nem o principal réu do próximo julgamento.
No entendimento ontológico da estética que esta dupla de cantores manifesta (juro que isto não é uma ofensa, ó estimados irmãos), a crítica cultural não pode aleijar o artista. Comentários jocosos sobre a qualidade da escrita de um romance, da performance de uma bailarina, ou de qualquer instalação de arte contemporânea estão, segundo os padrões Rosados, interditos por potencial humilhação e perda de valor.
Um produtor de um daqueles filme portugueses que ninguém nunca quis ver pode agora queixar-se em tribunal da fraca bilheteria, atribuindo-a a uma má crítica no Ípsilon ou na Revista do Expresso. Mais, se as críticas viperinas passassem a ser condenadas em tribunal, Portugal deixaria de ter suplementos culturais.
Na Sociologia da Cultura contemporânea discute-se muito o papel da crítica especializada, e a perda de importância que tem sofrido com o advento das redes digitais, que de alguma lhe retirou legitimidade. Ora, o par de cantores Rosados veio reformular a questão, evidenciando que, como foi notado nas audiências, uma crítica é mais perigosa do que ameaças de morte – ou pelo menos, a autora da crítica é mais responsável pelas ameaças do que os próprios autores dessas ameaças.
Há nisto uma encantadora ironia, de que os cantores e os seus advogados talvez nem se tenham apercebido, uma vez que parecem desconhecer as figuras de estilo, porque o que eles fazem aqui é uma espécie de sinédoque criminal.
* O autor escreve de acordo com a antiga ortografia


