Duir *

O litígio do momento, que opõe uma dupla de cançonetistas a uma humorista, já fez correr muita tinta. Ou seja, muito dedinho no teclado. A grande maioria dos comentários, escritos ou verbais, são de apoio à apresentadora. O país mobilizou-se, não sei se a favor da liberdade de expressão, ou se por achar, genuinamente, que a recriação do hino pelos Anjos é um atentado, senão a um símbolo pátrio, pelo menos ao bom gosto. É claro que os manos Rosário se precipitaram e talvez tenham posto fim à sua carreira. Quiçá mal aconselhados, foram com muita sede ao pote. E o processo está a ser contraproducente: o vídeo satírico de JM passou de umas centenas de visualizações, para vários milhões. Mas o debate suscitado na esfera pública está a ser profícuo. Voltou à baila a proliferação das micro agressões, a compressão dos limites do humor e da tutela dos direitos de personalidade de figuras públicas, ou a hiper-susceptibilidade à crítica. Já aqui o disse, não sou grande apreciador do tipo de humor cultivado por JM. Sobretudo, porque confunde o tema e o alvo. É um humor ressentido, linear, preguiçoso. Mas é assim. Quem não gosta, muda de canal e o mundo continua. Uma nota final sobre o humor. Se o riso é próprio do homem – ou, segundo alguns, de Deus, quando olha para os homens a pensar – o humor não é um valor universalmente aceite. Pelo contrário, é seguro dizer que o humor é exclusivo da chamada cultura ocidental. Porque pressupõe o livre arbítrio, o distanciamento crítico, a persona dotada de animus jocandi. A primeira referência literária a uma piada está na “Ilíada”, de Homero. Quando os deuses troçam de Hefesto, deus do fogo, por ser coxo. Estava dado o mote. Ao longo do tempo, o humor, seja na vertente satírica ou paródica, beneficiou de uma licença de que mais nenhuma outra forma de expressão usufruiu.
2. Os números comprovam que, para a generalidade dos americanos, a Europa “que conta”, seja para visitar, ou para viver, se resume às ilhas britânicas, França e Itália. Não é um estereótipo. É mesmo verdade. Que podemos confirmar através do cinema. Um americano tranquilo (Graham Greene que me perdoe) só pode viver ou nas ilhas britânicas (em Londres, na Escócia, ou num local nostálgico da Irlanda), em França (em Paris, na Cote d’Azur, ou num chateau qualquer a produzir vinho), ou em Itália (em Roma, em Florença, numa mansão renascentista ou barroca na Toscana, ou numa aldeia costeira da costa d’amalfi). Os mais aventureiros poderão escolher Amsterdão, Viena, uma ilha grega, ou um local recatado nos Alpes. A Europa de Leste só serve como cenário de espionagem, luta contra a criminalidade organizada e negócios obscuros. Os países nórdicos são habitados por uns felizardos deprimidos. A Península Ibérica é um local solarengo de retiro temporário. Se no cinema é assim, para o americano comum as coisas não serão muito diferentes.
3. Arno Gruen, psiquiatra alemão estabelecido nos EUA para fugir ao nazismo, no seu livro “A Loucura da Normalidade” dedicou um capítulo à figura do rebelde. E de como um egomaníaco com pretensões artísticas se pode tornar uma catástrofe. Mas o rebelde centrado em si pode tomar outra configuração: o contestatário permanente, que tira partido dos mecanismos do espectáculo. Porém, alimenta a imagem de que não precisa deles, ou é crítico feroz. Rejeita as convenções, mas só para melhor as servir. Na melhor tradição romântica, de Shelley a Byron, de Novalis a Lermontov. Só que estes, apesar de escravos da sensibilidade, não o eram da presunção. E um enorme talento amparava e justificava os seus épicos e impetuosos destinos…
4. Desapareceu aquele porno honesto e político dos anos 70. Em que se procurava, apesar do “reductio ad fornicatio”, o simulacro de uma narrativa. Por muito simplória que fosse. Escancarar a genitália chocava menos do que o abandono, puro e simples, das regras da narrativa definidas por Aristóteles na “Poética”. Com a peripécia e a continuidade espácio temporal à cabeça. Portanto, havia uma história. Um vestígio de pudor. Mas não havia praticamente depilação. Não existiam metrossexuais. Ron Jeremy e Linda Lovelace (do célebre “Garganta Funda”) estavam em alta. Um entusiasmo libertador apoderava-se das actrizes. Os nórdicos, tão contidos emocionalmente, mostravam como se faz. Godard desfazia-se em elogios ao realismo do cinema hard core. A revolução começava por onde devia sempre começar: no corpo. Uma desforra para dois mil anos de culpa e vergonha, inculcadas pelo cristianismo. Uma materialidade logo esfumada no ar do tempo.

* No calendário vegetal celta, significa “carvalho”

** O autor escreve de acordo com a antiga ortografia

Sobre o autor

António Godinho Gil

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