Que se lixe o zeitgeist

Todas as semanas há dois tipos de motivações para procurar o Observatório de Ornitorrincos nas páginas deste jornal. Uma é o desejo de ver este quadradinho ocupado com horóscopos chineses e árabes (ainda não é esta semana, queridos multiculturalistas), outra será a curiosidade de saber a minha opinião sobre o que quer que seja o assunto que me tenha dado na bolha de usar como mote da crónica. Essa exigência obriga os cronistas a terem opinião sobre tudo. Sobre o aquecimento dos oceanos, a praxe no Meco ou as eleições no PSD. (Agora que dou conta, percebo que inconscientemente escolhi três tragédias como exemplo. Tenho de ir rever o meu Jung.)

Chegou o tempo de dizer basta, principalmente porque agora já não se pode dizer chega. (A não ser na frase “chega aqui ao pé de mim”). O cronista pode não ter opinião nenhuma ou ter, mas não a querer partilhar. Para dar um exemplo de uma pessoa com quem vou mantendo contactos de tempos a tempos, eu não tenho assim muitas opiniões sobre a maior parte dos assuntos. O mais provável para cada assunto é não ter nenhuma, mas se tenho, nem sempre me apetece partilhar – às vezes a opinião é tão pequena e singela, que se a partilho, fico sem ela. Outras vezes, é só para não ficar sem a cabeça.

Regularmente recebo sugestões para as crónicas, “devias escrever sobre isto”, ou “podias era falar daquilo”. No entanto, a maior parte das vezes não tenho nada para dizer sobre isto nem aquilo. E ainda menos sobre aqueloutro, que vejo mal ao longe. Sobre Sicrano e Beltrano é que ninguém me peça para falar, porque cruzei-me com eles numa festa de Verão e não fiquei nada bem impressionado.

* O autor escreve de acordo com a antiga ortografia

Sobre o autor

Nuno Amaral Jerónimo

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