Quando era miúdo, o Carnaval era um país inteiro dentro do meu bairro. A rua ganhava um brilho que não vinha do alumínio das serpentinas, mas de uma energia que nos puxava para fora de casa: jogos improvisados, a petanca (que eu não jogava, limitava-me a assistir com respeito ao meu avô), torneios de bicicleta com regras inventadas à pressa e queda garantida no fim. Em casa, a liturgia era outra: filhós ainda mornas, chispo e pernas de porco a perfumar a cozinha, enchidos a servirem de relógio, sabíamos que estava quase a começar quando a frigideira se calava. O clímax era sempre o mesmo: a Morte do Entrudo. Havia cortejo, havia “viúvas” com pranto a rir-se de si mesmo, havia boneco a ser julgado e, no fim, o fogo. Ninguém lia manuais, mas todos sabiam o ritual: despedir o excesso, fazer as pazes com a vizinhança, virar a página para a Quaresma.
Hoje, olho para trás e percebo que não foi só o calendário que mudou; fomos nós. Em duas décadas, o músculo associativo emagreceu, as colectividades perderam braço, o “vamos” cedeu ao “logo vejo”. E, quando se afina menos a vida em comum, afina-se menos o Carnaval, sobretudo o seu acto mais inteligente: a sátira pública, a catarse partilhada, aquele testamento do Entrudo que punha à luz do dia os ridículos do ano, os nossos e os dos do costume. A Morte do Entrudo não era um capricho; era um pequeno serviço público. A literatura lembra que este teatro final, com julgamento e queima do boneco, servia de purificação colectiva: encerrava a folia e devolvia a comunidade a uma certa ordem, não sem antes lhe mostrar o espelho torto da crítica e do riso. Era tradição e era modernidade em simultâneo, um dispositivo popular que sabia mais de gente do que muita reforma administrativa.
Às vezes culpamos “o tempo que já não é o de antes”. É uma boa desculpa, mas não explica tudo. As relações mudaram: o indivíduo ganhou palco e a comunidade perdeu plateia. Onde antes havia tardes inteiras a preparar o boneco, há agora scroll infinito; onde havia um bairro inteiro a organizar o cortejo, há um grupo de WhatsApp a prometer comparecer “se conseguir”. E, no entanto, bastava pouco para ressuscitar o que parecia perdido: uma associação que abre portas ao sábado, um ensaio com as crianças a escreverem o testamento do Entrudo (com as suas piadas tortas e a graça crua de quem está a aprender a olhar a realidade), uma mercearia que oferece as laranjas para o cortejo, um padeiro que guarda a massa das filhós para a última fornada. Não é nostalgia; é logística.
Se alguma coisa me sobra deste balanço, é gratidão. Para quem, teimosamente, mantém a cultura acesa, as bandas filarmónicas que ainda saem à rua, as colectividades que continuam a enterrar o Entrudo, as carpideiras que não se esquecem de chorar a rir. Não escrevo isto em modo lamúria, mas como convite. Que cada um pense no que pode devolver à sua rua: uma hora para ajudar a montar o boneco, uma ideia para o testamento, uma travessa de filhós, um telefonema ao vizinho que tem jeito para organizar. O Entrudo morre todos os anos para que a comunidade não morra de vez. Se deixarmos de o enterrar juntos, deixamos de o viver juntos.
Eu lembro-me do cheiro do chispo, do barulho das bicicletas no asfalto, do boneco a chiar no fim. E lembro-me, sobretudo, da sensação rara de pertencermos uns aos outros por umas horas. Era Carnaval. E, porque nos levávamos ao riso, ninguém levava a mal.
Sugestões deste mês: Aqui há Galo! (7 a 17 de fevereiro);
Espetáculo: Concerto da Milhanas, no TMG, a 7 de fevereiro.
fevereiro, 2026 Romeu Curto


