Bilhete Postal de Diogo Cabrita: Aplicações

Escrito por Diogo Cabrita

1- As lentes, como modo de pesquisa e de informação, tornaram os telemóveis um objeto cultural incontornável e ilimitado. A lente olha o título e identifica o produto, a origem, o valor da peça e desse modo entrega ao utilizador conhecimento que dava trabalho pesquisar. Não precisa mais.
O brilhantismo destas aplicações é um hino à preguiça. Mas é um conforto e um aconchego ao conhecimento. Rótulos de vinho, cerâmicas bonitas, árvores, quadros, tudo se identifica numa câmara e dispara um diagnóstico inteligente com base nas informações incutidas à leitura da lente. Imaginem que os nossos olhos tinham um computador agregado.
2- As linhas de orientação para muitas tarefas são lentes de condução. O caso enquadra uma terminologia específica, uma catalogação clara, aplica-se o fluxograma e já está. Cumpra-se.
A morte do esforço intelectual acompanha o assassinato da sabedoria. Os médicos que só cumprem orientações são substituíveis por maqueiros ou robôs. Reparem como o Facebook é governado por uma aplicação obtusa e simplista que não distingue antropologia de pornografia. Mamas são inaceitáveis em quadros, fotografias do século XIX ou estudos de cirurgia plástica. O padrão é tão básico que a estrutura repousa no controlo acéfalo de uma aplicação.
Estamos perante uma aplicação antiga e ultrapassada. Se a META fosse equilibrada com lentes de aprendizagem falhava menos os critérios de exclusão dos seus clientes. Por outro lado, o critério de verdade e falsidade é muito relativo na maioria dos assuntos. Interpretamos a realidade pelo ângulo em que estamos posicionados e, portanto, teríamos de ter um VAR em cada decisão.
Este é o mundo que devíamos evitar.
O erro e a frustração são peças do crescimento e da adaptação social. A pesquisa também foi. O trabalho de biblioteca foi infantilizado pelo Google lentes.
O mundo está a mudar de modo muito rápido e as decisões de gente inculta serão sempre baseadas em conhecimento adquirido sem esforço na Internet. O perigo maior vem de que podemos falsear esta informação se formos donos das aplicações. Está é a realidade que devia preocupar os políticos de agora porque estamos a construir os de amanhã, filhos das aplicações dos telemóveis.
Gente simples que encontra o amor de modo virtual, que se informa com base em filtrados conhecimentos, que não questiona nem crítica as orientações.

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Diogo Cabrita

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