Opinião de Joaquim Brigas: Manter jornais no interior é uma escolha democrática

Escrito por Joaquim Brigas

Há uma afinidade estrutural frequentemente esquecida entre a comunicação social tradicional e as comunidades científicas. Ambas produzem conhecimento, um bem público cuja relevância ultrapassa largamente o seu valor económico imediato. Paradoxalmente, é precisamente essa natureza pública que expõe jornalistas e cientistas a crescentes problemas de sustentabilidade. Quando falham os mecanismos de apoio a estes setores, não está apenas em causa a viabilidade económica das organizações. Está em causa a qualidade da democracia e da liberdade de expressão.
A iminência de vários distritos do Interior poderem ficar sem distribuição de jornais e revistas impressos é mais um episódio desse processo. É um sinal claro da marginalização progressiva a que, nas últimas décadas, têm sido sujeitos os territórios periféricos. Embora este fenómeno não seja exclusivo de Portugal, assume no nosso país uma expressão particularmente grave. O sentimento persistente de abandono vivido por muitas populações do Interior alimenta fenómenos de desafeição cívica e de radicalização política que não podem continuar a ser ignorados.
O acesso à informação jornalística não é apenas um direito formal. É uma condição estrutural das democracias. Quem conhece o mundo apenas através das redes sociais fica inevitavelmente condicionado por algoritmos que privilegiam a emoção, a polarização e a confirmação de preconceitos. Só o jornalismo profissional, sujeito a critérios de verificação, responsabilidade editorial e escrutínio deontológico, assegura informação rigorosa, plural e socialmente responsável. É essa informação que permite cidadãos livres, críticos e capazes de decisão autónoma.
Por essa razão, apesar da digitalização irreversível dos consumos informativos, continua a ser relevante garantir a distribuição de jornais impressos no Interior do país. Tal como acontece com o porte pago da imprensa regional, o Estado pode e deve criar um mecanismo específico que assegure a entrega de jornais nacionais em todos os concelhos, incluindo os mais afastados dos grandes centros, no continente e nas regiões autónomas.
Esse apoio não deve, contudo, assentar num regime de exclusividade. Não faz sentido que seja canalizado apenas para um operador único de distribuição. Pelo contrário, deve ser estruturado de forma concorrencial, envolvendo cadeias da grande distribuição que já dispõem de redes logísticas com cobertura nacional. Não há praticamente município sem lojas do Continente ou Modelo, Pingo Doce, Auchan, Intermarché, Minipreço, Lidl ou ALDI, bem como da Bensaude Distribuição, nos Açores, ou do grupo Sá, na Madeira.
Com um estímulo adequado e transparente, será possível assegurar a chegada regular da imprensa a todo o território nacional. O custo será reduzido, dado o atual nível de procura, mas o impacto na vida democrática e no equilíbrio territorial será significativo. Garantir distribuição regular, de forma previsível, é uma forma simples de não deixar para trás concelhos do Interior, nem ilhas como o Porto Santo, as Flores ou o Corvo.
Este debate deve também estender-se ao papel das rádios locais, sobretudo em contexto eleitoral. Na recente campanha presidencial, o Estado financiou tempos de antena em televisões e rádios de âmbito nacional, deixando de fora as rádios locais, que continuam a ser um dos principais meios de proximidade informativa em muitos concelhos do Interior.
Para futuras eleições, faria sentido alargar este modelo, aumentando o montante global e permitindo que rádios locais que o desejem possam também transmitir tempos de antena de partidos ou candidatos. Essa opção contribuiria para a sustentabilidade destas rádios nos seus territórios e reforçaria a cultura cívica e democrática das populações, através de uma comunicação social de proximidade, plural e responsável.
A imprensa escrita e as rádios locais não são resquícios do passado. São infraestruturas democráticas essenciais, sobretudo no Interior do país. Ignorá-las é aprofundar o fosso territorial. Valorizá-las é investir na cidadania e na própria democracia.

* Presidente do Instituto Politécnico da Guarda

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Joaquim Brigas

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