Tradicionalmente, os políticos dividiam-se em Direita/Esquerda. O que nos habituou a identificá-los segundo as políticas que defendiam: individuo/coletivo; segregador/aglutinador; mercado/estado; misantropo/humanista e por aí fora. Em ditadura, por se revelar suficientemente eficaz no controlo dos desgovernados, era comum afinar-se o discurso propagandístico pelo respetivo diapasão oficial. Já em democracia o costume era dispensar-se a oficialidade da narrativa e os cidadãos expressarem livremente a sua preferência política através do voto. Mas isso era antes, ou assim parece, porque, desde qua a Política caiu neste desaire de ver a militância mudar-se de armas e bagagem para os antissistema, antipolíticos, “antitudomaisalgumacoisa”, as coisas, no que aos políticos dizem respeito, têm-se alterado substancialmente. E se nalguns casos não restam dúvidas nenhumas quanto ao propósito de quem se nos apresenta como salvador da pátria, noutros é muito difícil (ou nem tanto) perceber ao que vêm. Com a aquiescência dos inabaláveis da democracia, que preferem não condicionar nada nem ninguém, quem busca o respaldo da opacidade ditatorial, a que gostariam de ver instituída e controlada por si, é que agora brada por “liberdade”.
Por querer direitos, indecorosos e indefensáveis, como os de desacreditar a ciência e o conhecimento, a justiça e o direito e achincalhar os mais vulneráveis e diferentes, através de mentiras, meias mentiras e quase mentiras, clama por “liberdade”. Nomeadamente, liberdade de expressão a tal que lhes permitiria desumanizar quem bem lhe apetecesse para justificar qualquer maldade que lhe queira dirigir. Isto terá baralhado muitos daqueles que, talvez cansados da liberdade, passaram a confundi-la com opressão e agora dão em preferir quem lha quer coartar. O que muito provavelmente terá até levado alguns dos onze candidatos às próximas eleições presidenciais a esquivarem-se a assumir como é que politicamente podem ser definidos. Ora, dependendo daquilo que queremos e atendendo à conjuntura nacional e, principalmente à internacional, isto aconselhará segurança redobrada ao decidir se votamos na Direita, na Esquerda, nos seus centros e extremos, na Meia Esquerda, no Sabe-se-lá, na Animação Cultural, na Desanimação Social ou no Acrobata Aéreo. Acima de tudo, aconselhará a que não nos esqueçamos que, por mais estridentes que as propostas de certos indivíduos sejam, se estiverem enrodilhadas em traços ególatras, dificilmente contribuirão para o progresso da sensatez própria do humanismo. E se neles se concentrarem poder institucional e simbólico, podem mesmo constituir um factor de entropia democrática.
Incompreensivelmente, nesta circunstância tão difícil e adversa para a esquerda, os partidos mais à esquerda, só para “fazerem prova de vida político-partidária” (prova, na verdade, inútil porque não a farão por esta via) preferem prosseguir na corrida eleitoral a defender a democracia do recrudescimento da ideologia nacionalista-racista-xenófoba e, perigosamente, sexista e misógina (essa, sim, a mais vincada “ideologia de género”). Logo, não nos fará mal nenhum relembrar que presentemente a esquerda parlamentar não detém a capacidade de bloquear uma revisão constitucional, sendo crucial que, para a impedir e evitar uma “marcha sobre Roma”, a candidatura mais democrata dispute, nos limites do possível, o cargo de Presidente da República.


