As eleições autárquicas na Guarda deixaram-me um misto de tristeza e incompreensão. Não apenas pela derrota, que aceito com serenidade democrática, mas pela leitura que faço do que ela simboliza. O povo é soberano e a sua escolha deve ser respeitada, mas isso não nos deve impedir de refletir sobre o que esta escolha revela acerca da nossa sociedade, da nossa exigência e da forma como encaramos o futuro coletivo.
O Partido Socialista apresentou um projeto sério, com propostas concretas e necessárias, com uma equipa renovada, competente e um candidato preparado, conhecedor da realidade local e politicamente capaz. António Monteirinho sobressaiu positivamente em todos os debates, sempre com elevação, sempre com humildade, sempre com ideias. É, indiscutivelmente, um dos rostos mais consistentes e preparados da política guardense e, um dia, a Guarda e todos aqueles que fizeram contra-vapor vão percebê-lo. Estou certa de que fará um excelente trabalho enquanto vereador da oposição.
Por surreal que pareça, venceu, por maioria absoluta, quem durante quatro anos se limitou a governar por reação, pelo confronto assente na narrativa de vitimização. Sérgio Costa culpabilizou a oposição por tudo o que não conseguiu fazer, exercendo o poder de forma autoritária, pouco dialogante e nunca de forma humilde. Agora, com a maioria absoluta que tanto desejou, não há desculpas nem álibis: não haverá como fugir nem como se esconder atrás de ninguém. Estes próximos quatro anos serão, inevitavelmente, a prova de fogo daquilo que foi prometido e daquilo que verdadeiramente se é capaz de concretizar. A responsabilidade será total e o tempo, como sempre, acabará por revelar o essencial: o que se construiu e o que se perdeu.
Esta vitória é também um espelho de algo mais profundo: uma crise de valores e de exigência que se vai instalando na nossa sociedade. Falta pensamento crítico, falta cultura democrática, falta vontade de exigir. Maus políticos prosperam quando o povo desiste de pensar, quando a apatia substitui a crítica e quando a conveniência vence o mérito.
Acredito profundamente que o concelho da Guarda pode e merece mais: mais transparência, mais diálogo, mais visão. De igual forma, acredito que a oposição, mesmo reduzida em número, pode continuar a ser voz ativa, vigilante e construtiva.
Há, felizmente, uma nova geração de quadros jovens, bem preparados, informados e com coragem, que não têm medo de dizer o que pensam, de questionar e de propor caminhos diferentes. Jovens que fazem oposição com conhecimento de causa, com sentido de serviço público e com amor à terra que os viu nascer. São eles – somos nós – a esperança de um futuro melhor.
Que a oposição se consolide, que estes jovens não desistam da Guarda, porque a Guarda precisa deles. Precisa de ideias novas, de energia e de compromisso. E precisa, sobretudo, de acreditar novamente que é possível fazer diferente. Aqui estarei para ajudar.
O futuro dirá se esta foi uma escolha consciente ou apenas o prolongar da desistência, mas sei, com convicção, que há quem não desista da Guarda. E é nisso que reside a verdadeira esperança.


