1. Os candidatos escutam os populares como se fossem ao oráculo de Delfos. Se pudessem, os candidatos arrojavam-se aos pés dos vendedores nos mercados, como num delíquio sentimental digno de um romance russo do séc. XIX. Os candidatos dançam. Os candidatos tomam notas do balbuceio da populaça. Os candidatos adoram velhinhos garridos. Os candidatos são ungidos pelas forças vivas que engolem as comitivas. Os candidatos adoram as sandes de carne assada dos comícios e nunca têm flatulência. Os candidatos são confessores, psicólogos, profetas. Dão bitaites legais e clínicos, levam beijitos repenicados e palmadas no lombo. Os candidatos são os pára raios da vox populi. Os candidatos deveriam ter o dom da ubiquidade, da onipresença, da multiplicidade. Os candidatos persistem em auscultar o povo soberano. Forçam a comoção. Simulam a proximidade. São irmãos mais velhos. Escutam as crianças soberanas, pois é delas o amanhã que sorri.
2. A Dra. Mortágua, deputada única do BE e momentaneamente nas vestes de Laurentina das Arábias, enriqueceu o anedotário internacional com mais um sketch digno dos Monty Pithon. Tudo começou quando a Dra. Mortágua acorreu aos media, denunciando um alegado ataque de um drone enviado pelos israelitas, que terá atingido o seu barquinho e causado um pequeno incêndio. No Parlamento Europeu, a Dra. Catarina Martins, actriz de vaudeville nas horas vagas, tocou imediatamente os sinos a rebate e exigiu a aprovação de uma moção condenando Israel pelo cobarde ataque. Entretanto, as autoridades da Tunísia, país amigo do estado judaico, como é sabido, resolveram investigar o incidente, suspeitando haver gato escondido com rabo de fora. É claro que o felino foi ilibado, mas não um foguete de sinalização, conhecido por flare. O qual terá sido disparado por alguém a bordo, quiçá sob o efeito de alguma substância estimulante. Ou que terá visto reflectida na lua a estrela de David. Ou precisava de lumes para acender o coiso. Esperamos que esta expedição dure, pelo menos, até ao Natal. Será remédio santo no combate à nossa proverbial depressão.
3. Em “A Queda de um Anjo”, Camilo criou um personagem intemporal: Calisto Elói de Silos e Benevides de Barbuda, morgado da Agra de Freimas. Um austero fidalgo transmontano, eleito deputado e logo corrompido pela venalidade e bajulação da capital. É um padrão que a democracia não tem cessado de repetir. E nem é preciso citar nomes. O herói camiliano tem como seu contraponto Artur Corvelo, protagonista de “A Capital”, romance póstumo de Eça. Se no primeiro caso temos uma alegoria da atracção fatal do Portugal antigo pela modernidade do regime liberal e a banalização das elites que o suportam, no segundo vai-se mais longe. Nos tons já expressionistas e algo pessimistas do Eça tardio, assistimos a uma paródica e dramática dissolução das virtudes nacionais, impossível de redimir. Artur é vítima de si próprio, da sua ambição e prodigalidade, mas também da vertigem autofágica, com epicentro na capital, que tomava conta do país.
4. Eis uma série de paradoxos: o rebelde conservador e os revolucionários de esplanada; a águia que paira e as galinhas que debicam; o monge libertário e os progressistas de caserna; o cínico caloroso e os trânsfugas hipócritas; a lucidez activa e o azedume reactivo; o riso de Deus e a ginástica dos sofistas.
5. A sapiência da idade não é um dado adquirido. É antes o resultado de algumas renúncias. Começamos a entender que a previsibilidade nas pessoas não é uma fatalidade, mas um segredo que os outros, sem o saber, nos dão a descobrir. Para que liguemos gestos, encaixemos intenções, adivinhemos respostas. Basicamente, somos todos iguais. Falamos a mesma linguagem. Temos o mesmo ponto de encontro com o silêncio. Mas que nunca é no mesmo lugar.
* No calendário vegetal celta, significa “hera”
** O autor escreve de acordo com a antiga ortografia


