Opinião de António Ferreira: O fim da cerca sanitária

Escrito por António Ferreira

Há alturas em que é preciso reavaliar e reafirmar os valores que nos orientam. Um Presidente da República não governa, mas funciona como uma reserva moral, uma referência. Ele estabelece limites, vigia o cumprimento da Constituição, é o chefe máximo das forças armadas, representa o Estado e, nessa qualidade, representa-nos a todos. Não pode por isso ser um tipo qualquer, alguém que incentiva e aceita discursos de ódio, um racista e um xenófobo, alguém que gostaria do regresso da prisão perpétua, talvez da pena de morte, que defende a castração química, que procura continuamente encontrar inimigos a quem culpar pelos problemas do país e não oferece uma solução para nenhum desses problemas senão a sugestão de que, não fossem imigrantes, ciganos, beneficiários do Rendimento Social de Inserção, socialistas e comunistas e, em geral, gente de esquerda, viveríamos no melhor dos mundos. Alguém, já agora, que venera gente tão pouco recomendável como Trump, Marine Le Pen, Victor Orbán e outros. Numa palavra, André Ventura não pode, em circunstância alguma, vir a ser Presidente da República (nem primeiro-ministro, já agora).
É verdade que quem manda são os votos e ninguém é obrigado a votar em António José Seguro, ou proibido de votar em Ventura. Seguro ganhou a primeira volta e é favorito para ganhar a segunda, mas não entusiasma muitos, talvez a maioria, dos que votaram nele. Mas sabe-se que se for eleito não vai destruir a República e há a certeza de que irá desempenhar corretamente as suas funções. Já de Ventura teme-se o pior: tentar governar a partir de Belém, de onde irá impor a agenda do Chega, vetar ou reter a legislação que não lhe convém e esperar o melhor momento para provocar eleições. Se ganhar, será o presidente de apenas aqueles que ele achar serem “portugueses de bem” e irá hostilizar todos os outros.
É inquietante verificar o alcance do Chega e do seu presidente, mas até agora a cerca sanitária tem funcionado. Embora mostre ter consolidado quase um quarto do eleitorado, continua a ser um partido de um homem só e, espera-se, com uma capacidade de crescimento limitada. Votam nele os analfabetos e os eleitores com menos instrução (onde é maioritário); em contrapartida, é o que atrai menos licenciados. É basicamente um partido que apela ao ressentimento dos seus votantes, sugerindo-lhes que a causa da sua falta de sucesso são os que o partido vai identificando como inimigos.
A cerca sanitária justifica-se e parece evidente que qualquer democrata deve fazer os possíveis por evitar que o Chega ou o seu presidente cheguem ao poder. É o que se esperaria dos derrotados da noite. Mendes, Cotrim, Gouveia só tinham que engolir o seu desapontamento e recomendar o voto em Seguro na segunda volta. Os candidatos de esquerda derrotados fizeram-no de imediato e não lhes caíram os parentes na lama. Ao menos eles mostraram saber o que está em jogo.
Quando Mendes, Cotrim e Gouveia optaram por não recomendar esse voto mostraram duas coisas: não mereciam ganhar a presidência; para eles não há cercas sanitárias.

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