Observatório de Ornitorrincos de Nuno Amaral Jerónimo: Votas em quê?

Faço vários testes dos votómetros e bússolas políticas que pululam pelas internetes, e o resultado é invariavelmente o mesmo. A meio entre a esquerda e a direita económica, a meio entre o progressismo e o conservadorismo. Se alguém andar à procura de quem esteja rigorosamente ao centro, parece que me encontram por lá. Apelidado de facho pelos comunistas e de comuna pelos fascistas, o centro político é hoje um lugar solitário.
Nos testes de compatibilidade, fico literalmente entalado entre os dois candidatos sobrantes a Presidente – embora esteja bastante à larga, devido às distâncias que me separam de ambos. É verdade que prefiro quem não seja queixinhas, quem não seja um cata-vento, quem não seja fracturante. Mas como não há nenhum desses na segunda volta, e o regresso do Reino ainda não é para este mês, terá de servir o voto em quem não seja bardajão.
Os socialistas, que antes nem sequer gostavam do Tó-Zé, exigem agora ao eleitorado que menosprezaram, insultaram, enxovalharam que votem no “seu” candidato. Já escrevi aqui que prefiro jogar pelo seguro. Mas não me esqueço dos anos em que os socialistas se deleitavam com António Costa, depois de ter feito a Seguro a mais trafulha das sacanices e a Passos Coelho a mais sacana das trafulhices. Não me esqueço dos anos em que conviveram alegremente com partidos extremistas. Não me esqueço dos anos em que todos os políticos e comentadores, ainda que centristas e moderados, que não fossem ao beija-mão de Costa eram perigosos radicais. Não me esqueço que os socialistas, habituados ao que consideram ser o seu direito natural de governar, praticaram durante décadas uma espécie de terrorismo intelectual que se manifesta na desconsideração de todos aqueles que deles discordam – e pior, que lhes possa afrontar o poder. Não me esqueço como alimentaram o Chega e o seu líder para enfraquecer o PSD, o CDS e a IL. Agora, fazem de conta que são virgens donzelas e pedem-nos um beijinho para se libertarem do bruxedo. E nós damos, porque o feitiço também não nos encanta.
Podemos fazer de conta que nos parece ser a escolha mais segura. Podemos imaginar que estamos a fazer um seguro de vida contra riscos de aventuras. Podemos até desejar que o homem seja seguro nas acções e nas palavras. O “vosso” candidato pode ter o meu voto no dia 8, mas à noite, depois da contagem, quero-o de volta.

* O autor escreve de acordo com a antiga ortografia

Sobre o autor

Nuno Amaral Jerónimo

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