Observatório de Ornitorrincos de Nuno Amaral Jerónimo: Uma gaivota voava com IA e GPS

Numa cimeira tecnológica que custa balúrdios ao país, onde os deslumbrados da nação sobem ao palco de lágrimas nos olhos, um ministro gritou o mais que conseguiu até perder a voz e a noção, acabando a dizer que Portugal poderá ser o líder mundial em Inteligência Artificial.
Esta introdução merece cinco comentários diversos, pelo que farei como os intelectuais da televisão, e esclarecerei apenas três, e farei comentários laterais sem nenhum interesse.
Primeiro, quando eu andava na escola, os nerds da tecnologia e os geeks da literatura ficavam no canto do recreio, quietinhos e sossegados, não fossem ser vistos pelo resto da fauna adolescente e apanhar uns piropos – nos dias bons – ou um calduços – nos dias normais – ou mesmo um sopapo – em dias de chuva. Agora há festivais totalmente dedicados aos meus camaradas desse canto da escola – Tribecas e Websummits – com públicos numerosos a pagar bilhete para os ver e ouvir. E não o digo por despeito, que ser professor universitário também é fazer do nerdismo ganha-pão.
Segundo, como o recente e sociologicamente astuto Astérix na Lusitânia refere, os portugueses vivem de nostalgia do passado e desesperança no futuro. A WebSummit é a coisa mais antiportuguesa que o governo português alguma vez já patrocinou. Até Roberto Martínez, um tipo desesperante com péssimas decisões, consegue, precisamente por isto, ser mais português do que o ministro da Economia aos pulos e aos berros perante centenas de estrangeiros. Proponho, por isso, mesmo que Martínez e Castro Caldas troquem de lugar. É provável que o destrambelhamento táctico do espanhol não provoque nada na nossa economia, e talvez o deslumbramento do ministro fizesse maravilhas com a nossa selecção nos Estados Unidos de Trump, no Verão do ano que vem.
Quarto, (ou terceiro, para quem estiver com atenção), sou dos que acredita que um país deve valorizar as suas características, naquilo a que os especialistas chamam de vantagens comparativas. Julgo que Portugal não deveria investir em inteligência artificial, mas sim apostar naquilo em que já somos uns dos países pioneiros e líderes no mundo – a estupidez natural. Portugal não está fadado para liderar em IA, o nosso fado é “ai, ai, ai”.

* O autor escreve de acordo com a antiga ortografia

Sobre o autor

Nuno Amaral Jerónimo

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