Opinião de Pedro Fonseca: Felicidade à finlandesa e acessibilidade de Mamdani

Escrito por Pedro Fonseca

Há oito anos seguidos que a Finlândia é reconhecida como o país mais feliz do mundo. Tal deve-se, em grande medida, ao entendimento sui generis que os finlandeses têm de “felicidade”: por terras finlandesas, ser feliz é ter uma sensação alargada de segurança. O Estado finlandês providencia uma sensação de segurança estrutural aos seus cidadãos, sobretudo àqueles que obtêm o seu rendimento através do trabalho, proporcionando-lhes uma vida com dignidade e conforto.
Os mais jovens sabem que, após a conclusão de uma licenciatura ou de uma especialização profissional, têm boas perspetivas de encontrar um emprego estável e bem remunerado. A população ativa sabe que, quando a hora chegar, a reforma está garantida. Uns e outros sabem que podem usufruir de serviços de saúde, de educação e de assistência social acessíveis e de qualidade.
Do outro lado do Atlântico, Zohran Mamdani venceu as eleições para “mayor” de Nova Iorque. A direita conservadora soou todos os alarmes por os destinos da capital financeira do mundo estarem agora nas mãos de um imigrante muçulmano que professa um socialismo no limiar dos pergaminhos comunistas. A esquerda populista soou as trombetas da vitória precisamente pelos mesmos motivos.
Mas a vitória de Mamdani não se deveu à sua condição de imigrante ou membro de uma minoria religiosa. O futuro “mayor” de Nova Iorque venceu as eleições porque soube identificar o grande problema económico-social que hoje afeta os habitantes da maioria das cidades do mundo ocidental: cada vez menos pessoas conseguem suportar o elevado custo de vida nos meios urbanos onde residem. Mamdani prometeu aos nova-iorquinos que iria tornar a sua cidade novamente acessível para se viver.
Entre o sentido de segurança ao longo da vida e a possibilidade de deixar de contar os trocos para chegar ao final do mês. Entre essa estranha felicidade finlandesa e a força da promessa de devolução de uma cidade aos seus cidadãos. É aí que reside a utopia possível para o mundo ocidental de 2025: viver sem medo do amanhã.
Quanto nos distanciámos já dos magnificentes estádios finais das grandes metanarrativas dos séculos XIX e XX. No lugar onde outrora moravam promessas de criação de um “homem novo” e de edificação de sociedades perfeitas, encontramos agora uma humilde aspiração: a de podermos continuar a viver nas cidades onde sempre vivemos.

* pedrorgfonseca@gmail.com

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