Sete anos depois de Pedrógão Grande, continuamos incapazes de combater o fogo. O luto pelas 66 vítimas mortais daquela tragédia ou as 49 que ocorreram meses depois ficou lá trás, em 2017. Mas é nelas e em todas as outras vítimas dos incêndios que ocorreram, entretanto, que pensamos quando estamos perante a intensidade das chamas. E tem que ser nelas que temos de pensar quando perguntamos o que fizemos para mudar o paradigma e a forma de combater o fogo. Infelizmente concluímos que nada mudou! Ou muito pouco.
Nos últimos oito anos multiplicaram-se os estudos, os planos e a reorganização, aumentou-se exponencialmente o investimento em meios, mas o resultado está à vista, quando o calor aperta e a humidade desaparece o país arde como sempre. Ou como nunca, porque se antes a maioria dos fogos eram extintos no mesmo dia em que era identificada a ignição, agora demoram dias e dias até se conseguir dominar as chamas.
Mudámos tudo, para tudo ficar na mesma, é a conclusão triste a que chegamos ao observarmos como em Vila Real, em Ponte da Barca ou, especialmente, em Trancoso, tudo continua na mesma: voluntarismo dos populares e dos Bombeiros, mas inércia e falta de coordenação, incapacidade no combate, falta de meios, dependência dos meios aéreos que não chegam, falta de vigilância ou de limpeza…
Como podemos aceitar que durante dias o concelho de Trancoso tenha sido devastado pelo flagelo do fogo? Como podemos sequer conceber que a cidade tenha ficado cercada? Que podemos responder às populações que gritam «fomos deixados à nossa sorte»? Depois de milhões queimados, afinal continuamos na mesma?
O pânico e o medo das populações rurais, que não dormem quando o fogo anda por perto, tem de ser aliviado pela garantia de segurança que as autoridades têm de dar. O Estado não pode continuar a deixar andar… A segurança das pessoas é responsabilidade do Estado e é uma das suas incumbências primordiais, não podemos tolerar que este falhanço atroz seja aceitável e que os governantes se demitam da sua responsabilidade.
Exige-se uma política de fundo para o interior do país. Um “plano Marshall” que contrarie o abandono e o despovoamento, que promova a economia e o emprego; um plano de qualificação ambientam e políticas de apoio à florestação e à agricultura; um plano “verde” que assente na flora autóctone, na vigilância e limpeza, no ordenamento e na organização do território. O que arde é privado, mas é o Estado quem paga o combate ao fogo, a nacionalização da floresta e a gestão pública dos campos pode ser um caminho – o futuro passa por essa enorme mudança de paradigma sobre a propriedade, em especial nos territórios de minifúndio e abandono do mundo rural.
Enquanto arde, um pouco por todo o lado, devemos refletir sobre as mudanças climatéricas, sobre o estado do mundo rural, sobre a desertificação do interior, sobre o despovoamento por falta de opções de futuro, sobre as políticas autárquicas e sobre o caminho que queremos para o nosso futuro. Enquanto assistimos ao habitual “deixa andar”, sem exigência e a pensar no presente, o futuro será negro. O fogo não pode continuar a ser combatido apenas quando está a arder…
Editorial de Luís Baptista-Martins: O flagelo do fogo…
«Como podemos aceitar que durante dias o concelho de Trancoso tenha sido devastado pelo flagelo do fogo?»


