Opinião de Fidélia Pissarra: Talvez nem tudo deva ser uma questão de fé

Escrito por Fidélia Pissarra

«Assim blindada, a menos que aconteça algum, mais do que muito improvável, milagre, deixa de ser possível esmiuçar a intenção de quem nos impinge as regras mais punitivas sustentada nas teorias mais perniciosas.»

Coisas como os últimos resultados eleitorais são difíceis de entender. Como se um dos nossos maiores problemas não fosse o envelhecimento da população, por baixa natalidade, e a subsequente falta de mão de obra, ganharam-nas os partidos que se propunham acabar com a entrada de imigrantes, seguidos pelos que defendiam a expulsão dos mesmos. Assim, sem tirar nem pôr, coisa que, de resto, parece não preocupar ninguém. Claro que por a cota não bater com a perdigota (os migrantes tendem a orientar-se no sentido de quem do trabalho deles precise) não terá passado pela cabeça de ninguém que, à boleia da política anti emigração, se lembrassem de passar também às políticas anti mães e anti trabalhadores. Ora coisa mais incompreensível de se aceitar como boa do que esta é difícil de imaginar e mais difícil de imaginar será que tanta gente acabasse a concordar com tamanha incompreensibilidade, elegendo quem assim a arquitectou e impingiu.
Bem se sabe que o nosso caminho para a aceitação do incompreensível costuma começar cedo, mal nascemos já estamos a ser batizados. Depois disso, presumo, qualquer um suporá – e com razão – que seja muito mais fácil convencerem-nos de que, para o bem e para o mal, por vontade divina, o mundo será o que tiver de ser e que percamos a capacidade de o questionar. Daí que talvez nem seja assim tanto de admirar que, mesmo perante as evidências mais nítidas, haja quem queira continuar a defender o indefensável e a promover o condenável sem quaisquer pruridos éticos ou morais. Afinal, a vontade divina não se questiona e muito menos se contesta: é divina. O problema é que, como boa divindade, a essa entidade nunca ninguém a viu e, sem a conhecer, não há como saber o que diz ou deixa de dizer. O que muito jeito tem dado a quem as quer por a proferir as coisas mais excêntricas e inaceitáveis, desde que dê lhe jeito. Podem até ser coisas diferentes, consoante a forma e o tempo do jeito que necessitem. Pouco importará. Ao fim e ao cabo também não será por derivar do divino que se poderá exigir a alguém que a sua cartilha seja impermeável a todas as nuances necessárias a cada um dos seus propósitos.
Assim blindada, a menos que aconteça algum, mais do que muito improvável, milagre, deixa de ser possível esmiuçar a intenção de quem nos impinge as regras mais punitivas sustentada nas teorias mais perniciosas. O que deveria ser mais do que suficiente para nos impedir de defender o que é contra nós, só por acharmos que com isso nos afirmaremos contra o outro. Mas parece que não, seja por isto ou por aquilo, há sempre alguém disposto a querer convencer e alguém a querer ser convencido de que tudo o que de mal se fez, ou foi por um bem maior ou não foi tão mau como isso. Seja de que maneira for, até o mais incompetente, o mais mentiroso ou criminoso, por razões que a razão cada vez conhece melhor, há de arranjar quem o defenda.

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Fidélia Pissarra

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