Vivemos num território plurifacetado onde se cruzaram civilizações e múltiplos caminhos da nossa história, da qual ficaram marcos perenes, edificados ou retidos na nossa memória coletiva.
As nossas terras possuem uma vasta riqueza monumental, artística e cultural que importa salvaguardar, estudar e promover. Há vastas vias a percorrer, e nunca será demais o empenho pessoal e coletivo na afirmação da nossa identidade.
Contudo, é nas gentes deste interior que encontramos uma grande riqueza, com maior ou menor expressividade no nosso território geográfico ou de afetos; com recorte diferenciado na galeria humana de uma região que não tem tido a devida justiça perante o trabalho aqui desenvolvido, pela resiliência dos seus habitantes, pelos exemplos de fidelidade à terra mátria, na expressão de Pinharanda Gomes.
As nossas aldeias não oferecem apenas a sua singularidade, a arquitetura tradicional, os ciclos festivos, as atividades ligadas à sua vivência, as suas tradições; guardam também a memória dos seus naturais, que por este ou aquele motivo se evidenciaram.
É o caso da localidade de Vale de Estrela (anteriormente designada Porcas) onde nasceu um poeta singular: Joaquim Chamisso; ele verteu nos seus versos o amor à terra natal. “Porcas onde eu nasci, / Aldeia minha adorada, / C’o Chamisso aqui nascido / Ficas mais valorizada”.
Um dos contributos para o conhecimento deste poeta popular, nascido em 1886, foi dado com o trabalho publicado, em 1984, pelos professores António Correia, Alice Ribeiro, Duarte Menezes e António Correia (na altura na Escola Secundária da Sé), com a recolha dos versos de Joaquim Chamisso. Esta recolha foi feita a partir de “ecos repercutidos nos vetustos muros da fortaleza, no arco da Torre, no largo do Governo Civil, no claustro do Tribunal e, mais afogados em cascata ruidosa, no velho Café Mondego, no pátio da Polícia, junto às árvores do Sanatório – para ele “A Casa da Tosse” – e até nas valetas da rua pública (…)”.
Assim era escrito no prólogo da referida publicação sobre Joaquim Chamisso que “falava em verso, tinha na sua ignorância a sabedoria profética do provir e no seu filosofar inculto, sentia a cultura viver e pulsar (…)”.
Em 2003, num texto que integrava a publicação “Guarda – a memória das coisas”, Separata da Revista Praça Velha, António Correia escrevia que “a veia poética de Joaquim Chamisso não terá a força nem a expressividade dos versos de Aleixo, também poeta popular, mas de qualquer modo, estremece nos seus versos uma grandeza contida que indicia uma personagem forte, audaz, valente e destemida”.
O articulista (que foi um dos docentes intervenientes na recolha de poemas anteriormente mencionada) acrescentava depois haver “neste versejador uma vontade indómita; uma revolta incurável, uma inesperada humanidade, uma escandalosa e inusitada consciência moral, bem como uma prospetiva e imprevisível esperança quando denuncia os poderosos”: “Chamai tudo o que quiserdes/Sois uma gente atrasada; / Dizei tudo o que quiserdes; para mim não valeis nada”. Ou ainda, “Idiota me chamais; / Nada vedes, nada sabeis; / Idiota, que vos digo / Tudo quanto mereceis”.
A cidade mais alta de Portugal merecia, da sua parte um grande afeto. “Guarda, eu quero-te tanto / És a minha amada; / Tens gente que eu detesto, / Mas, por mim és adorada”; na Guarda não esquecia que lhe dedicava atenção. “Dr. Lopo de Carvalho / Homem de grande valor/ Também tu te destacaste / No meio dos outros doutores”; “O Senhor Dr. Antero /Tem um grande coração: /Alguns dentes me tirou / Sem me levar um tostão. (…) Homem bom e muito simples / Nunca devia morrer; / Devia ficar no mundo / Para sempre bem fazer”.
Isto num contraste com “Outros grandes exploradores / Que a terra há-de comer / Até se esquecem no mundo / Que um dia hão-de morrer”.
Joaquim Chamisso faleceu na Vela (no então Albergue Distrital) em outubro de 1965. “Em Vale de Estrela eu nasci / E à Vela vou morrer; /Gostava de morrer na terra / Mas isso não pode ser…”.
O poeta pode e deve ser mais um importante elemento de valorização da freguesia de Vale de Estrela, libertando Joaquim Chamisso “da poeira do esquecimento”, como em 1994 já defendiam os docentes que efetuaram a meritória recolha de versos que se desdobram em autobiografia, em referências familiares, alusões à cidade e à região da Guarda, em elogios a personalidades, na sátira e crítica social.
É importante que não se quebre o fio da memória, de forma a tecermos novos projetos, lançando pontes para um melhor conhecimento das nossas gentes e terras, numa profícua e interventiva rede de cultura e tradição.


