Imaginar um mundo sem palavras só pode parecer-nos um dos maiores absurdos possíveis de imaginar. E com razão. Desde logo porque nem sequer pensar no que quer que fosse seria possível. Como pensar numa árvore, num cão ou num projeto sem saber o que lhe chamar e sem palavras para definir para que servem ou de onde apareceram? Pois. Seria um grande e insolúvel problema. No entanto, embora talvez de forma não tão extrema, na realidade isto já começa a ser assim. Infelizmente, o parco vocabulário de um crescente número de pessoas leva-as a substituir os nomes de tudo e mais alguma coisa por aquilo que consideram servir para denominar, precisamente, tudo e mais alguma coisa. No caso, bubble será um bom exemplo.
Para muitos, até bubble serve para explicarem tudo o que, pensando saber, não sabem. Para tantos outros, pese embora o facto de não fazerem a mínima ideia do que falam, serve para justificar o que defendem quando acham que sabem o suficiente para que o bom do bubble os ajude a fundamentar o injustificável. Mas não se pense que só há uma espécie de bubble, porque, na realidade, há muitas. Dependendo do que cada um pretende, bubble tanto pode ser interpretada como cor, como tamanho. Confuso, não é? Eu também acho. Mas vejamos, quando um governante tenta justificar a tentativa de invasão de país alheio através de uma sequência de bubble e um autarca faz o mesmo para entreter os respetivos munícipes com candidaturas da cidade a isto e ao outro, ainda que com entoação e ritmo bem diferentes, evidentemente que só os dos mesmos bubble os entenderão. Ou pior, ainda, esses, mesmo que os não entendam, disfarçam e passam a reproduzir esses bubles iniciais até à exaustão: LGTB bubble; Corrupção bubble, bubble; Sucesso, bubble; Imigração bubble, bubble, bubble, bubble; Felecidade bubble; Política bubble, bubble, bubble; Economia bubble, bubble, bubble; Habitação bubble, bubble, bubble; Educação bubble, bubble.
Ora como ninguém pode defender alguma coisa através da repetição da mesma palavra e, simultaneamente, explicar que coisa é essa, isto talvez já seja um dos nossos maiores problemas. Quer dizer como a cada a “bubble” (bolha) equivale um “trouble” (problema) vivemos num molho de brócolos. É o que é. Porque, apesar de branco nunca significar verde, tal como defender que cada um deve poder ser aquilo que é, não significar que se esteja a impor aos outros que sejam como ele, no mundo dos de um vocábulo só vai dar tudo ao mesmo. Diz-se que não se acha bem que um governo estrangeiro se imiscua na governação de outro país e é-se logo tido por defensor de autoritarismos. Diz-se que a saúde deve ser um direito e é-se tido por comunista. Calhando defender os direitos dos presidiários, é-se pelos ladrões. Condenando atos bárbaros das autoridades, é-se contra as polícias e por aí fora.
Por tudo isto _ e pelos dados da OCDE (6,6 milhões de pessoas entre os 16 e os 65 anos que vivem em Portugal apenas conseguem compreender frases curtas e simples) _ tenho cá para mim que não serão os portugueses quem mais tem contribuído para que o jogo “Bubble Trouble” (“estourar” bolhas) esteja classificado pela Google Play no top 10 dos jogos online. Não, não.


