Cara a Cara

«O tempo verdadeiro não pode ser desperdiçado porque sem ele o homem perde o sentido da sua existência»

Escrito por ointerior

P – O mais recente livro de Lina Couto é “Kairós – um tempo oportuno”, sobre o que fala?

R – É um romance que acompanha um percurso duma mulher e professora que sempre olhou para a vida como um processo contínuo e transformação. Cada situação vivida, cada desafio, enfrentam um Tempo Oportuno que contribuiu para um autoconhecimento alinhado, não apenas num resultado, mas fundamentalmente num caminho de oportunidade. O Tempo para os Gregos situava-se paradoxalmente num Chronos que representa o tempo cronológico, o tempo quantitativo, o tempo do relógio e o tempo Kairós, o tempo oportuno, intenso sentido nos instantes, avanços qualitativos em direção a um ideal humano, à sabedoria e à plenitude humana. Um tempo verdadeiro de intensidade que não pode ser desperdiçado porque sem ele o homem perde o sentido da sua existência. Será que há uma relação ou uma desconexão entre estes dois tempos? Onde encontrou a mulher e a professora o equilíbrio entre o tempo quantitativo e o tempo qualitativo? Na Filosofia? Na Psicologia? Nos seus alunos e alunas? Na Biblioteca? Na celebração de uma humanidade imperfeita, inquieta na procura do saber?

P – A quem se destina esta obra?
R – Destina-se a todos os leitores que, no momento presente, acreditam que a vida não é só recordar o passado ou vislumbrar o futuro. Sem uma participação ativa na sua existência através da leitura não existe qualquer possibilidade de usufruir de um pensamento crítico, livre e sustentado numa inteligibilidade racional e dinâmica. Para os meus leitores mais jovens reforço este sinal de esperança: sem livros, a compreensão, a racionalidade e a paixão ficam comprometidas e a ignorância captura a “sua” realidade.

P – Em quem momento decidiu escrever “Kairós – um tempo oportuno”?
R – Sempre escrevi ao longo da minha vida, mas colocava tudo de lado porque os meus dias eram demasiado preenchidos com múltiplas tarefas – também tenho uma tese, discutível, de que só se pode escrever numa determinada idade, tenho razões para pensar assim. Não houve uma decisão com uma intencionalidade segura. No final de 2023, o pensamento e as palavras “gritaram”, “zangaram se” para a seguir convergirem na “grandeza deste ato”. Seria insensatez? Um risco? Uma bênção? Costumo dizer que a insensatez atormenta, mas decidi numa ambivalência emotiva e racional e iniciar um processo doloroso, mas apaziguador e intenso. O resultado é a minha gratidão para todos os leitores como escrevi no prefácio do meu livro.

P – A obra vai ser apresentada esta quarta-feira na Escola Secundária da Sé, na Guarda. Porquê começar por um ambiente repleto de jovens?
R – É o “ único lugar possível”. Dou muita importância aos contextos humanos, físicos, geográficos, culturais e sociais. As Escolas, a Escola Secundária da Sé é um “lugar” de humanização. Sem educação seriamos uns seres frágeis, pequenos, carentes de sonhos, de consensos, numa incapacidade total para admitir que o erro é condição essencial para a procura do conhecimento. A Escola Secundária da Sé tem um “super- poder” para transformar aprendizagem em reconhecimento, fragilidade em força vital graças a uma comunidade que se desprende do invisível para partilhar o visível.

P – Que novos projetos poderão aparecer num futuro próximo?
R – Quando se começa a escrever nunca mais se deixa de o fazer. Não tem de ser logo… Há uma pulsão existencial e a minha resposta, sim, virão outros projetos. “Encontrarmos uma direção, encontrarmos uma irreversibilidade é um desafio à nossa inteligência”, como nos diz E. Prado Mendoça, em “O Mundo precisa de Filosofia”.

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DADOS DE PERFIL

Lina Couto, autora da obra “Kairós: O Tempo Oportuno”

Naturalidade: Famalicão da Serra, Guarda.

Currículo:  Estudou no Liceu Nacional da Guarda; Licenciada em Filosofia pela Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra.  Professora de Filosofia e Psicologia. Formadora em várias áreas da Filosofia, Psicologia do Desenvolvimento e Psicopedagogia.

Livro preferido: “O Mito de Sísifo” de Albert Camus.

Hobbies: Ler, passear junto ao mar, jardinagem

Sobre o autor

ointerior

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