A Câmara Municipal da Guarda manifestou a intenção de avançar com o processo de candidatura do centro histórico da cidade à UNESCO. Trata-se de uma oportunidade estratégica para afirmar a cultura como motor de desenvolvimento económico, social e territorial numa região marcada por desafios demográficos e pela necessidade de reforçar a sua atratividade.
A ideia não é nova, há muitos anos que está identificada como ambição estruturante (em 2013 a candidatura do PS definiu-a mesmo como a principal proposta de candidatura às eleições autárquicas), mas a vontade de candidatar o Centro Histórico da Guarda a Património Mundial foi sempre adiada. Esta é a primeira vez que a ideia se corporiza e pode ser uma candidatura ambiciosa para recuperar S. Vicente e afirmar a Guarda como destino turístico com património da UNESCO.
O Centro Histórico da Guarda, tantas vezes chamado de diamante por lapidar, finalmente poderá ser lapidado. A “cidadela” possui características patrimoniais singulares que sustentam esta ambição. O conjunto urbano integra elementos arquitetónicos e patrimoniais de elevado valor histórico, como a Sé da Guarda, a Torre de Menagem, a Judiaria, as muralhas e portas medievais e diversos edifícios religiosos e civis que testemunham diferentes períodos da evolução urbana da cidade.
A candidatura à UNESCO deve, contudo, ser entendida para além da dimensão patrimonial. A experiência de cidades portuguesas já classificadas demonstra que o reconhecimento internacional pode transformar-se num poderoso instrumento de desenvolvimento local. Neste sentido, a cultura deve ser encarada como um eixo estruturante da estratégia de desenvolvimento da Guarda (e há muito a fazer nesse sentido). Mais do que um simples ativo turístico, o património cultural funciona como fator de diferenciação territorial num contexto de crescente competição entre cidades e regiões.
Importa sublinhar que as atuais orientações internacionais da UNESCO valorizam não apenas os monumentos, mas também a relação entre património material, património imaterial e sustentabilidade. A Guarda possui potencial para articular o seu património arquitetónico com tradições culturais, gastronomia, festividades e com a proximidade à Serra da Estrela, território já reconhecido internacionalmente através do Geopark Mundial da UNESCO. Esta integração entre património, natureza e cultura pode fortalecer a candidatura e criar uma estratégia territorial mais abrangente.
Entretanto, a Guarda poderá também avançar com uma candidatura a Capital Portuguesa da Cultura 2028. Segundo Sérgio Costa, os técnicos estarão há algumas semanas a analisar e a preparar essa eventual candidatura que entronca na mesma estratégia. Depois do ambicioso projeto de candidatura da Guarda a Capital Europeia da Cultura 2027, que não teve sucesso, mas deixou um lastro de valorização cultural e excelentes sementes para um plano estratégico municipal de cultura, novamente a cultura como eixo determinante para o futuro da Guarda.


