Opinião de Romeu Curto: Os amigos que só voltam em julho

Escrito por Romeu Curto

«Para os pais que deixam os filhos na escola pela primeira vez. Para os que os deixam pela última. Para todos os outros: aproveitem enquanto é verão. E deixem que eles também o façam.»

Em setembro fala-se muito de regressos. Do regresso às aulas, aos cadernos ainda por preencher, aos horários fixos e ao despertador impiedoso. É o tempo das fotografias com mochilas maiores do que as crianças, das lágrimas (deles e dos pais), da azáfama das papelarias. Fala-se disso tudo. Mas pouco se fala do outro adeus — o que se dá aos amigos de verão. Aqueles que se conhecem em julho-agosto e que, sem contrato nem promessas, só voltamos a ver no verão seguinte.

Com eles aprendi mais do que com muitos professores. Eram diferentes: vinham de outras escolas, tinham outros dialetos, outras referências. Com eles aprendi a mergulhar de costas, a ouvir as músicas que acompanhavam o restante ano letivo, a ver o Ratatouille numa televisão emprestada como se fosse no Cinema Paradiso. Eram amigos temporários, mas intensos. Talvez por isso tenham ficado.

Segundo o INE, 15,7% da população portuguesa regressa às aulas neste mês. Ou seja, mais de 1,6 milhões de jovens irão dizer adeus às férias. A questão não está só no fim da piscina e no início dos trabalhos de casa. Está também no desaparecimento de um tempo livre, fértil, onde a vida social se faz de bicicletas, poços, concertos improvisados, crushes que duram duas semanas, discussões sobre jogos de tabuleiros e paixões que se desfazem à porta do comboio.

Aos pais, deixo um apelo: antes de preocupações com médias e planos curriculares, pensem também na importância de deixar os filhos viverem o verão. Experimentarem. Fracassarem. Entusiasmarem-se por coisas que não servem para o currículo. Porque nesta idade, só há duas variáveis que contam: tempo e interesse. E no verão, as duas alinham-se.

Já sei que este texto chega algo tarde. Que o verão está a fechar. Mas ainda vão a tempo. Vão às origens. Voltem às vossas. Levem os miúdos a conhecer os amigos que vos moldaram. Façam com que eles também criem os seus. Porque entre os regressos às aulas, às rotinas e às regras, há um património emocional que se perde se não for vivido.

E lembro-me sempre do B Fachada, que escreveu o que muitos sentimos:

“Primeiro dia de escola é sempre a mesma lição / Fazer de conta que crescemos no verão…”

Para os pais que deixam os filhos na escola pela primeira vez. Para os que os deixam pela última. Para todos os outros: aproveitem enquanto é verão. E deixem que eles também o façam.

Docs de apoio:

Primeiro Dia – B Fachada / Francisca Cortesão

https://www.ine.pt/xportal/xmain?xpid=INE&xpgid=ine_main

Sugestões deste mês:

 

Poço Do Zé Azinho (Paul-Covilhã)

Acompanhar as atividades da Associação Paul Mais Jovem – https://www.facebook.com/associacaopaulmaisjovem

Hipocritões e Olhigarcas de Rui Tavares

agosto, 2025 Romeu Curto

Sobre o autor

Romeu Curto

Deixe comentário