A tragédia em Gaza cresce para níveis impensáveis. Quase dois anos depois, os números são avassaladores. De acordo com as agências da ONU há mais de 53 mil mortos, maioritariamente civis, incluindo mais de 18 mil crianças, mais de 100 mil feridos, cerca de 12 mil desaparecidos e seguramente muitos mais soterrados nos escombros consequência dos bombardeamentos e das bombas que não param de cair nos céus de Gaza, como resumiu Daniela Nascimento, em “Gaza: a Humanidade sob os escombros”, no Expresso, e «Gaza hoje não é apenas e só mais um território cercado e totalmente destruído. É cada vez mais o lugar onde a defesa da Humanidade parece ter sido enterrada de vez sob os escombros juntamente com os milhares de vidas perdidas».
Mas se essa tragédia promovida pela força militar israelita há muito era percebida, há uma dimensão muito mais monstruosa, e que não nos pode deixar indiferentes, milhares de mortos pela fome e pela doença. Não há, nem pode haver, discurso internacional sobre direitos humanos enquanto os palestinianos em Gaza são dizimados pela fome e pela doença… se a tragédia da guerra é uma calamidade para os povos envolvidos, nesta ou em qualquer outra guerra, é uma catástrofe ainda mais incompreensível quando se mata o inimigo com a privação alimentar impedindo o acesso à comida – é a crueldade humana e falta de humanidade a impor-se.
O horror em Gaza escalou para níveis que nos pareciam improváveis ou mesmo impossíveis. Se a retaliação inicial era justificada, a destruição bárbara passou a ser excessiva e inadmissível. Mas o pior chegou nas últimas semanas com um cerco intencional que impede o acesso aos alimentos e à água potável, a medicamentos, a eletricidade, mantendo um povo cercado pelo medo e pela fome.
Enquanto não se compreende que o Hamas não se renda e liberte os reféns, e assim aniquile os argumentos belicistas de Israel, a Europa vai ziguezagueando entre a cegueira, os interesses e a insensibilidade. Se Espanha e França tomam nota e adiantam-se no reconhecimento de dois estados na região, os valores e princípios que os europeus tanto prezam ficam vergonhosamente engavetados à espera que a paz chegue sozinha.
Perante tudo o que vemos e ouvimos, não podemos ignorar, como nos ensinou Sofia, e mesmo que queiramos olhar para o lado ou confiar nas razões superiores de quem decide, já não podemos calar perante a tragédia humana a que assistimos. A fome e a doença como meio de extermínio étnico tem de nos perturbar. Não podemos continuar à procura de justificações e a assobiar para o ar. O silêncio compromete-nos. Não podemos calar perante a fome como arma de guerra.


