Opinião de Fidélia Pissarra: “O Futuro é para sempre”

Escrito por Fidélia Pissarra

Com o que juntamos, havemos de ser como o outro que atirou fora o que não queria e compôs o próprio retrato. Andar pelo centro da Guarda é dar de caras com os que não estão, ver portas fechar, as casas que ainda não caíram e silvas a tomar conta das restantes. Por falta de passos e limpeza, nos passeios à volta dos jardins há seiva das árvores entranhada na calçada portuguesa, empurrando o movimento de quem os tenta percorrer para a irregularidade dos paralelepípedos do meio da rua quase sem carros a circular. Compreende-se, por isso, que nos queiram a pairar, porque a cidade só brilha vista de longe, ao perto está intoleravelmente mal cuidada e pouco convidativa. Há uma estranha lisura nos “eventos”, nas “festas” e “romarias”, concebidos num universo suspenso, sem passado ou vestígios dele, em que nos põem a esvoaçar para, supostamente, encontrarmos um destino impossível de vislumbrar a partir do chão. Esta ilusão de dinamismo e progresso, tão funcional ao encantamento político, tem repousado sobre o profundo desconhecimento de quem somos, de onde viemos e para onde queremos ir.
Nesta forma de viver a Guarda, em que a história desaparece numa recombinação da cultura local alimentada por três ordens de expropriação – a da completa ruralização das manifestações culturais e afetivas; a do desleixo em relação aos elementos que deveriam sustentar a teia urbana e a do desprezo pela atividade económica – o futuro da cidade é tido como secundário. Na presente retórica institucional, os traços identitários, a inovação e a sustentabilidade foram nitidamente substituídos pelo panfleto, pelo espetáculo e pelos anúncios. A obra pensada, planeada e executada foi sistematicamente excluída da gramática institucional. O que levou a que a tradicional dignidade das inaugurações pré-eleitorais, apesar da tentativa de manter a coreografia, ficasse sem o palco que meia dúzia de metros de alcatrão e uma dúzia de anúncios não substituem. Na impossibilidade de se fazer o balanço da obra, restar-nos-á fazer o balanço da retórica com que sempre poderemos disfarçar a aridez de um mandato gasto a perorar sobre a que é que os guardenses dão e não dão valor. Dessa micro-atividade, disfarçada de interações, de interesse pelos nossos interesses, para o que realmente interessa, além da aparência de nos oferecer um serviço personalizado, pouco poderemos extrair. A cidade está mais degradada e nenhum dos seus principais problemas foi resolvido: demografia, economia e sustentabilidade. O que está em causa, portanto, não é apenas o problema da degradação dos espaços urbanos, mas também a rejeição que o tecido económico e social tende a fazer à degradação em geral e à urbana em particular. Não há quem para aqui queira vir e, até os que cá estão, começam a ir embora.
Por isso, mais do que uma denúncia do passado e uma leitura do presente, urge sabermos interpretar o invisível: a aparência de dedicação e seriedade tem sido a forma de disfarçar a inépcia. Talvez então se perceba que o verdadeiro prodígio dos atuais protagonistas não é, sequer, a sua fluência, mas o modo como nos têm convencido.

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Fidélia Pissarra

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