Sociedade

Dinis, o pequeno príncipe que insiste em sorrir

Escrito por Sofia Craveiro

“Principezinho Com Nome de Rei” é o nome da página de Facebook dedicada ao sempre sorridente Dinis Martins, um menino com HIE (encefalopatia hipóxico-isquémica) natural de Gonçalbocas, na Guarda. A página nasceu para reunir apoios para tratamentos, mas tornou-se um relato comovente e enternecedor da evolução constante de Dinis, que já serve de exemplo a muitas outras famílias na mesma situação.

A história remonta a 2015, altura em que Dânia e Daniel Martins planeavam a chegada do primeiro filho. Nada fazia prever as dificuldades. A gravidez de Dânia, natural de Gonçalbocas, decorreu sem grandes sobressaltos até à altura do parto. Embora estivesse em cima da mesa a possibilidade de cesariana, Dinis nasceu de parto natural. Natural,mas definitivamente fora do normal. O alarme instalou-se quando, durante o nascimento – e após horas de dores cada vez mais intensas –, os médicos mudaram a posição de Dânia e lhe colocaram uma máscara de oxigénio. A situação repetiu-se três vezes nas horas que se seguiram. «Comecei a pensar que algo se estava a passar, mas não fiquei muito alarmada pois os médicos e enfermeiros pareciam muito calmos», adianta a jovem mãe. «Achei que se houvesse razão para estar preocupada certamente eles já teriam agido», acrescenta.

Nas horas seguintes rapidamente a serenidade deu lugar ao alarmismo, quando, por estar mal posicionado, Dinis foi submetido a rotação manual e teve de ser retirado do ventre da mãe com recurso a instrumentos, acabando por nascer em paragem cardiorrespiratória. «Ele nasceu em morte aparente, em situação de hipoxia e teve de ser reanimado», recorda Dânia Martins. Algumas horas após o parto Dinis teve convulsões, o que levou a que ficasse novamente sem oxigénio durante alguns minutos. Foi depois transferido para os cuidados intensivos do Hospital Pediátrico de Coimbra, onde esteve em coma induzido durante uma semana. «Nessa altura ficámos a saber que ele tinha lesões muito extensas em ambos os hemisférios cerebrais, o que iria afetar a parte cognitiva e motora», conta a mãe. «Só pedíamos que ele sobrevivesse e a partir daí fazíamos tudo o fosse necessário por ele», acrescenta.

Dinis com 10 meses

Dinis começou a recuperar progressivamente, a respirar sozinho e a mamar. Depois disso «focámo-nos totalmente na sua reabilitação». Hoje, o menino é um exemplo de superação. De sorriso fácil e enorme simpatia, Dinis encara com naturalidade e otimismo os muitos tratamentos que enfrenta diariamente. «Ele está muito habituado e reage muito bem. Começou a fazer fisioterapia com um mês, terapia ocupacional com quatro meses, psicomotoridade com oito e aos nove meses começamos a ir a Lisboa fazer uma terapia chilena, que levou a que começasse a andar», explica a progenitora. Daí em diante o foco foi a alimentação e a fala, os aspetos onde os pais reconhecem maiores dificuldades. Todos os tratamentos são realizados em clínicas privadas, o que resulta num esforço financeiro muito grande para os pais.

Esta razão esteve na origem da página “Principezinho Com Nome de Rei” que teve um importante papel

Página de Facebook “Principezinho Com Nome de Rei”

na sensibilização da comunidade para a condição de Dinis. «Quando criámos a página no Facebook vimos que havia muitas pessoas dispostas a ajudar e foi graças a isso que conseguimos a verba para realizar o primeiro tratamento em câmara hiperbárica, em Espanha». Consiste num “mergulho” que simula a pressão atmosférica do fundo do mar, aumentando exponencialmente a quantidade de oxigénio recebida no cérebro e provocando um impulso nos neurónios. É algo que tem um grande impacto no desenvolvimento do “Principezinho”, mas que tem um custo extremamente elevado: «Nunca conseguiríamos suportar esse custo se não fosse com a ajuda de donativos», sublinha Dânia Martins.

Apesar do positivismo com que relatam hoje a situação, o casal viveu grandes dificuldades, em especial na aceitação da condição do filho. «Chegámos a um ponto em que não queríamos sair de casa e evitávamos o convívio com outras pessoas, em grande parte para proteger o Dinis», admite Daniel, segundo o qual o que os levou a mudar de comportamento foi «mesmo ele e a sua atitude positiva e lutadora». A partilha da história nas redes sociais contribuiu também para uma nova forma de encarar as adversidades com que lidavam. «Para mim acabava por ser quase uma terapia, o escrever e partilhar tudo aquilo porque passámos», afirma Dânia Martins. Graças a esta página, atualmente com mais de 12 mil seguidores, o casal tem hoje a ajuda valiosa de um grupo de famílias na mesma situação. «Criámos um grupo de apoio e já temos uma boa rede a nível nacional e também no Brasil», refere, orgulhosa, a mãe do “pequeno príncipe”.

Sofia Craveiro

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