Especial Feira de S. Bartolomeu Especial Feira São Bartolomeu 2025 Região

«Mais do que uma feira de um concelho, a Feira de São Bartolomeu é a feira de uma região»

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Escrito por ointerior

Entrevista a Amílcar Salvador, presidente da Câmara de Trancoso.

P – Quais são as expetativas para esta edição da Feira de São Bartolomeu? 

R – As expetativas são, naturalmente, altas. Não tenho dúvida que 2025 vai ser mesmo a melhor Feira de São Bartolomeu dos últimos anos e, portanto, vamos com certeza ter mais gente ainda do que no ano anterior. A própria feira vai ter uma visibilidade diferente, quer a nível de decoração, de sinalização e de iluminação, vai haver de facto algumas novidades logo na entrada do recinto, no próprio “layout” da feira, embora mantendo um pouco o mesmo figurino dos anos anteriores. De qualquer das formas realiza-se num espaço muito agradável, com uma área superior a três hectares, e também no Pavilhão Multiusos, que vai acolher a mostra das atividades económicas.

P – Este ano há um espaço que foi melhorado para facilitar a mobilidade dos visitantes?

R – Fizemos a requalificação de um empedrado que estava no campo da feira, que dificultava muito a mobilidade das pessoas. Depois de termos o visto do Tribunal de Contas para a Câmara voltar a ter a propriedade total daquele espaço e também do parecer favorável por parte da Direção Regional da Cultura do Centro, para podermos fazer essa alteração, todo esse empedrado vai levar uma faixa de relva natural, que foi colocado no início desta semana para permitir que as pessoas tenham outra mobilidade no campo da feira. Essa requalificação é muito importante porque ao longo destes anos foram muitas as pessoas que ali caíam, portanto, era um problema que urgia resolver para melhorar muito a mobilidade dos visitantes e a sua segurança também. Isto aconteceu um pouco em cima da edição deste ano da Feira de Bartolomeu, mas precisamente por esses motivos que referi, do visto do Tribunal de Contas para aprovar a dissolução da empresa municipal PACETEG e do parecer favorável da Direção Regional da Cultura do Centro, é que podemos lançar a obra.

P – A Feira de São Bartolomeu é a mais antiga feira franca do país e por isso é um momento importante para Trancoso, mas também para toda a região. Continua a ser assim?

R – Mais do que uma feira de um concelho, é uma feira de uma região e de um território e, portanto, é de facto um dos maiores eventos comerciais de toda a região e tem impacto muito grande na nossa economia. Nós vemos que neste mês de agosto é, de facto, o auge, até porque estão por aqui muitos imigrantes e é um gosto recebê-los porque a Feira de São Bartolomeu é sempre um ponto de encontro ou de convívio, de confraternização e de reencontro das pessoas, das famílias e dos amigos. Muitas vezes, são pessoas que vemos apenas de ano a ano. Ainda temos no concelho oito agências bancárias, seis na cidade e duas em Vila Franca das Naves, e um dado muito positivo é que os multibancos, em Trancoso, registam um volume de pagamentos e de levantamentos muito superior neste mês de agosto, sobretudo nos dias de realização da Feira São Bartolomeu.

 

P – Habitualmente esta é uma feira com lotação esgotada ao nível dos expositores, diversões e espaços de restauração. Também é assim este ano?

R – A Feira de São Bartolomeu está toda vendida há bastante tempo, portanto, todos os espaços estão ocupados desde a maquinaria agrícola, em que temos 13 ou 14 stands – nem conheço que haja feiras assim na região, com um parque de máquinas como nós temos –, a mesma coisa a nível de veículos automóveis novos e usados. A situação repete-se nos bazares, nas tasquinhas, na restauração, nas diversões, no artesanato, na mostra das atividades económicas, todos estes espaços são vendidos e pagos pelos expositores e participantes. A bilheteira para os concertos abre diariamente a partir das 19 horas, mas, naturalmente, muita gente entra antes. O bilhete tem um preço quase simbólico de 3 euros em seis dias da feira e de 5 euros nos restantes dois, portanto, o total será 28 euros. Mas se as pessoas adquirirem o bilhete geral só vão pagar vinte euros. O que a Câmara Municipal e a organização querem é que as pessoas entrem, daí estes preços atrativos. Todos os anos a receita com a bilheteira ainda é significativa e ajuda-nos muito a custear todas as despesas com este acontecimento.

P – Qual é o orçamento para esta edição da Feira de São Bartolomeu?

R – Esta é novamente uma organização conjunta da Câmara de Trancoso com a AENEBEIRA – Associação Empresarial do Nordeste da Beira, que colabora connosco, tal como os funcionários do município em toda a parte logística, mas obviamente que é um investimento significativo por parte da Câmara. São mais de 600 mil euros, mas depois com a receita da bilheteira, com todos estes espaços alugados e depois com as transações que ali são feitas, não tenho dúvida que é, de facto, um momento alto para a economia do concelho.

P – Quantos pessoas deverão visitar a feira nestes dez dias do certame?

R – Todos os anos tem rondado as cem mil pessoas. Não tenho dúvida que esta feira tem vindo a crescer com os cartazes musicais que temos apresentado, com esta divulgação também mais atempada e, portanto, estou convencido que, este ano, podemos chegar às 120 mil pessoas.

P – O terceiro e último mandato de Amílcar Salvador à frente do município de Trancoso está a chegar ao fim. Que obra, que legado, deixa no concelho?

R – Foram anos bastante difíceis, muito mesmo, e exigentes, mas, em 2013, também sabíamos ao que vínhamos. Foi necessário ultrapassar muitos obstáculos e barreiras, mas conseguimos. Foi uma honra e um orgulho muito grande estar à frente da Câmara Municipal em tempos muito desafiantes, mas estamos de consciência tranquila porque conseguimos alcançar os objetivos que tínhamos programado. Desde logo, conseguimos o reequilibro financeiro da autarquia, que, em 2013, tinha ultrapassado o limite de endividamento, ou seja, tecnicamente estava falida. Para além disso, havia ainda muitas dívidas e também o problema da parceria público-privada com o grupo MRG, que representava um encargo de 9 milhões de euros. Nestes 12 anos, a Câmara Municipal de Trancoso pagou tudo a toda a gente. Está tudo liquidado e arrumado. Já em termos dos contratos que existiam, na sequência da parceira público-privada, o município vai poupar qualquer coisa como 14 a 15 milhões de euros nos próximos 20 anos depois do trabalho que fizemos para equilibrar as contas e as negociações com a CGD.

P – Quanto a obras físicas propiamente ditas, a requalificação do edifício dos Paços do Concelho é uma das mais visíveis…

R – Chegar ao final do mandato com a requalificação deste edifício que nos orgulha a todos, e que não foi fácil, é um orgulho muito grande.

 

P – E que outras obras destaca?

R – No centro histórico, por exemplo, a requalificação da praça municipal, que tem uma importância económica muito grande para Trancoso; o Posto de Turismo, o Centro de Inovação e Desenvolvimento Social, onde temos cerca de 25 a 30 idosos diariamente. Inaugurámos também o espaço Trancoso Invest, uma incubadora de empresas, no edifício do antigo quartel da GNR, onde já temos nove a dez empresas e alguns serviços da Câmara Municipal. Tudo isto que conseguimos fazer ao longo destes anos foi também com o apoio de todos, porque procurámos sempre congregar, unir, com uma colaboração grande por parte dos vereadores da oposição, com quem fomos sempre discutindo e acertando pormenores. Ou seja, sempre puxámos todos para o mesmo lado.

P – O prometido Museu da Cidade, no Palácio Ducal, ainda não está concretizado, esta é a grande promessa que fica por concretizar nestes 12 anos de mandato?

R – Não. Pelo contrário, convém esclarecer que foi necessário, primeiro, negociar aquele espaço que não era da Câmara, fazer escrituras, pagar, criar condições financeiras para que a obra avançasse, elaborar o projeto, rever o projeto, ainda para mais num centro histórico, com todas as exigências que se conhecem em termos burocráticos. A Câmara Municipal podia ter vendido pelo triplo um edifício que comprou por cerca de 350 mil euros, mas preferimos que esse património ficasse para os trancosenses. Agora estamos no bom caminho, a obra já foi adjudicada.

P – O turismo religioso tem hoje uma importância relevante em todo o mundo e Trancoso não foge à regra, com a conhecida judiaria e o Centro de Interpretação Isaac Cardoso, o que falta para conseguir atrair mais visitantes?

R – Trancoso tem crescido muito a nível turístico. Posso dizer que entravam 12 a 13 mil pessoas no castelo em 2013/14, hoje temos 40 mil entradas, uma média superior a cem pessoas por dia no castelo, Centro de Interpretação Isaac Cardoso e Casa Bandarra. Cem visitantes diariamente significa um contributo muito positivo para a economia. O alojamento e a restauração ficam a ganhar.

P – E como está o processo da recuperação da necrópole de Moreira de Rei?

R – Está na sua fase final, foi um processo que não correu bem, sempre assumi esse constrangimento, mas é uma obra muito importante também para o turismo em Trancoso, porque é a maior necrópole da Península Ibérica, com mais de 600 esculturas. Tivemos alguns percalços a nível da arqueologia e da antropologia, o próprio empreiteiro acabou por abandonar a obra e foi necessário reformular o projeto, lançar novo concurso, já que o primeiro ficou deserto. Estamos agora na fase final e muito em breve, neste mandato, em setembro ou outubro, a obra estará concluída. O Centro de Interpretação da necrópole de Moreira de Rei, juntamente com os outros monumentos classificados da localidade, será um complemento muito interessante ao património do nosso centro histórico.

P – Como está a rede viária do concelho? Houve também investimentos importantes na requalificação das estradas?

R – Apesar dos problemas financeiros com que nos deparámos no início do primeiro mandato, não deixámos de começar a investir na rede viária do nosso concelho, já que estava completamente degradada. Trancoso será dos municípios que tem a rede viária municipal em melhor estado. Temos um orgulho enorme nas ligações entre as nossas freguesias rurais e sede do concelho. Apostámos numa política baseada na recuperação de dez quilómetros de estradas a cada ano, portanto, em dez anos conseguimos requalificar todas as estradas municipais e agora está a decorrer um procedimento para a colocação de nova sinalização rodoviária. No final deste mês de agosto teremos todas as estradas municipais devidamente requalificadas e sinalizadas.

P – Em Vila Franca das Naves, a criação do Espaço do Cidadão foi uma boa aposta?

R – São 1.500 pessoas por ano que recorrem àquele espaço, muitas delas de outros concelhos para resolver os seus problemas com a administração central.

P – E ao nível do emprego e empreendedorismo?

R – Tivemos uma atenção muito grande para com a população e as empresas.

O concelho tem vindo a subir nos rankings das 50 maiores empresas a nível distrital, já que Trancoso está mesmo no terceiro lugar, logo a seguir aos concelhos da Guarda e Seia. Nas PME Líder passa-se exatamente o mesmo, tal como nas PME Excelência. Temos 12 empresas com estatuto de PME Líder, o que é um orgulho enorme, graças ao trabalho e mérito muito grande dos nossos empresários. Isto resulta deste espírito de colaboração por parte do munício com todos os empresários, em todos os ramos, incluindo a agricultura, como por exemplo, o setor da castanha, a vinha, o olival e a pecuária.

P – Considera então que o balanço da sua presidência na Câmara de Trancoso é positivo?

R – Ter ajudado e colaborado na construção do novo quartel dos Bombeiros Voluntários de Trancoso, ter inaugurado o Centro Escolar da Ribeirinha, o espaço Trancoso Invest, a requalificação do edifício dos Paços do Concelho, são momentos que nos trazem muita alegria e satisfação, mas a satisfação maior é continuar a servir Trancoso, amar esta terra, este concelho de onde sou natural… Mas vou continuar a andar por aí, junto das pessoas. Vou continuar a ajudar o concelho nesta linha de progresso.

P – Em relação aos sucessivos adiamentos da reabertura da Linha da Beira Alta, qual é a posição do autarca de Trancoso? Estes atrasos têm prejudicado o concelho?

R – Temos acompanhado essa situação com muita preocupação porque, ao longo deste tempo, as informações que os municípios receberam foram poucas. A linha que passa por Vila Franca das Naves encerrou a 19 de abril de 2022, com a promessa de que tudo estaria concluído no prazo de nove meses, mas o certo é que obra se foi arrastando sem grandes justificações. Quer os autarcas, quer a própria população, mereciam, de facto, outro respeito e ser informados. O que pretendemos é que esta linha reabra o mais rapidamente possível porque é extremamente importante para o concelho de Trancoso.

A estação de Vila Franca das Naves tem uma importância muito grande não só para o nosso concelho, como para os municípios a Norte do distrito da Guarda.

P – Numa região com um índice de despovoamento elevadíssimo, como acha que este cenário pode mudar no futuro ao nível da baixa natalidade e envelhecimento da população?

R – Encaro o futuro com muito otimismo. Em primeiro lugar, tudo tem que passar por um discurso diferente de todos nós. É preciso valorizarmos todas as nossas potencialidades: como a segurança, a tranquilidade, o património, os recursos endógenos. O Agrupamento de Escolas de Trancoso teve uma subida de mais 20 ou 30 alunos no ano letivo anterior e isso é um bom sinal. Temos de aproveitar as janelas de oportunidade com dedicação e trabalho porque nada cai do céu. Pela primeira vez nos últimos 20 anos, Trancoso não perdeu população.

 

 

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