Para reformularmos um lugar é necessário, antes de mais, compreendê-lo. Perceber as raízes que o sustentam, a seiva que atravessa os caules do tempo, os espinhos e as flores. Reflexão complexa e condicionada para quando se está dentro. Aprender com quem fez do pensamento condução de vida é sempre um bom princípio.
Antes de aqui chegar, acreditava que o nosso maior problema, enquanto comunidade guardense, seria a perda da identidade. Um desvincular com a história, com a essência, com a vontade do porvir – memória arrefecida e futuro congelado. Uma perda de sentido que nos faz aceitar a deriva como triste fado de um mistério sagrado que desceu sob a montanha, vestindo a contemplação de um horizonte que não se alcança.
Sentei-me à mesa com Eduardo Lourenço – felizmente a obra é perene as palavras nunca morrem – e deixei-me conduzir pela sua estrada maior que a fronteira. Ambos com a “Estrela Polar”, de Vergílio Ferreira, como estrela guia, separados pelas eras, mas quiçá numa tarde comum, partilhámos a mesma inquietação sobre o nosso lugar no mundo – esse lugar elevado, mais pela altivez do espírito do que pela altitude da serra.
Foi então que compreendi que não era da identidade que nos afastávamos, mas de um destino maior que sempre nos pertenceu, mesmo sem o sabermos. O desígnio ibérico de que Eduardo Lourenço falava, esse apelo à reconciliação dos nossos lados ibéricos, à ultrapassagem do trauma da fronteira como ferida – não era uma utopia vã, mas um convite à redescoberta do nosso papel no centro simbólico da Península. A Guarda, terra de silêncio e sentinela, não está nos confins, está no epicentro do que pode vir a ser.
Lourenço via em nós uma vocação, não para o fechamento, mas para a mediação. Uma cidade que olha de frente o outro lado e o acolhe com a lucidez crítica de quem sabe que a identidade não se perde no encontro, antes se amplia. Não é na muralha que está o nosso destino, mas na ponte. E se a História nos moldou como bastião, talvez seja tempo de nos reinventarmos como farol.
A sua visão, tão desconcertante quanto luminosa, deixou-me uma pergunta que ainda hoje me acompanha: estaremos preparados para esse papel? Para ser, mais do que guardiões do passado, arquitetos de uma nova pertença? Uma pertença que não negue a nação, mas a inscreva numa partitura mais ampla, onde Espanha e Portugal não sejam antagonistas resignados, mas cúmplices no pensamento e na cultura?
Na sua lucidez profética, Eduardo Lourenço não nos pediu que imitássemos a Europa, mas que fôssemos europeus à nossa maneira – e ser europeu, para nós, começa por ser ibérico. Começa por transformar a altitude em visão, a interioridade em voz, a fronteira em lugar de encontro.
E talvez seja esse o verdadeiro desafio: fazer da Guarda não apenas um ponto no mapa, mas um centro de gravidade moral e cultural. Uma nova vocação que nos restitua ao nosso futuro.


