Deixei Coimbra em 2003, onde vivi parte dos anos mais marcantes da minha vida, para regressar à Guarda, a minha terra. Fi-lo por opção e não por impulso, porque era aqui que devia estar. Há um momento na vida em que o coração pesa mais e em que as raízes nos chamam com uma força impossível de ignorar.
Coimbra representou muito. Foi lá que me formei, que vivi experiências transformadoras, que conheci pessoas extraordinárias e que comecei a construir um percurso profissional. Foi uma cidade que me acolheu, da qual me senti sempre parte, criando-me estímulos, motivações e desafios. Ali aprendi a ver o mundo com outros olhos, a pensar criticamente, a sonhar alto. Mas, havia um sentimento silencioso dentro de mim, a sensação de que faltava algo. E esse “algo” era a Guarda.
A Guarda, tem um significado único e profundo na minha vida. É onde nasci, onde cresci, onde criei os laços e valores que continuam a definir-me. É uma terra de contrastes, fria no Inverno e sempre quente nas relações humanas; aparentemente distante dos centros de decisão, mas cheia de pessoas com uma sabedoria ímpar e uma força de caráter e resistência notáveis. A Guarda precisa e merece mais atenção, mais investimento, mais cuidado. E foi, com este sentimento de querermos mais destes 1.056 metros de altitude que me coloquei ao caminho, com o propósito de sermos úteis à nossa terra, de retribuir o que dela recebemos, de fazer o melhor por ela.
Quem, como eu, volta, implica sacrifícios, deixa para trás oportunidades confortáveis e um caminho profissional mais previsível. Mas ganhei algo muito mais valioso, a consciência de que podemos fazer a diferença. E isso não tem preço. Desde que regressei, procuro dar o meu contributo, seja através do trabalho, da participação cívica e política ou do envolvimento em projetos que ajudam a desenvolver o nosso território, compreender os seus desafios e acima de tudo, estar, participar e sentir o que queremos e precisamos na nossa comunidade. Só assim podemos saber por onde continuar a defender e a construir o futuro do nosso interior.
Tal como muitos, também partilho uma visão ambiciosa, moderna e europeia para a Guarda, mas, sinto que, por vezes, há um ambiente resignado, um pouco derrotista, que se instalou ao longo de décadas. Devemos deixar de pensar que “isto é o que temos”, e acreditar que se queremos, podemos e conseguimos mudar. Estimo profundamente as minhas raízes, esta identidade granítica única que nos define, acreditando que podemos voltar a ser e a ir mais longe. Voltar a ser uma Guarda dinâmica, inovadora, aberta ao mundo, sem deixar de ser autêntica.
Há quem veja estas terras como lugares remotos, onde pouco acontece. Uma visão injusta e redutora. A Guarda tem um potencial cultural, humano, histórico, natural e estratégico imenso. Neste sentido, devemos acreditar, hoje mais do que nunca, que é possível transformá-la num lugar onde as pessoas escolhem ficar, onde as famílias estão seguras, onde o envelhecer não é sinónimo de solidão, onde a ciência e o saber são o ar que se respira e a geração de riqueza e qualidade de vida, o resultado saudável do esforço coletivo.
Voltar à Guarda não foi só um regresso. Foi, pelo contrário, persistir por continuar a acreditar e a apostar no seu futuro. Um compromisso com as minhas origens, mas também com um sonho real de progresso sustentável sem perder o respeito pelas nossas tão verdadeiras identidades e tradições. Voltei por amor à terra, por um sentido de missão e porque acredito que o interior pode e deve ser parte ativa na construção do país.
A Guarda não é um ponto no interior, nem uma posição no mapa da Serra da Estrela. É a nossa casa. E vale sempre a pena lutar pela casa que nos viu nascer, crescer e viver!
* O autor escreve ao abrigo dos antigos critérios ortográficos


