Opinião de Romeu Curto: 155 Anos de Cidade: e então, Covilhã?

Escrito por Romeu Curto

Diz-se que foi a 20 de outubro de 1870 que a Covilhã foi elevada a cidade. O rei D. Luís I, na sua letra régia, justificava: “uma das vilas mais importantes do reino pela sua população e riqueza”. Não sei se ele alguma vez pôs os pés aqui e se pôs, não deve ter sido no inverno. Mas teve olho. Ou bons informadores.

A Covilhã foi e é cidade de trabalho. Cidade-fábrica. Cidade de cardar e fiar, de mãos encortiçadas pelo frio e pela lã. Cidade de operários, de fábricas ao longo das ribeiras, da Carpinteira à Degoldra, do som dos teares a embalar o progresso. Cidade de judeus empreendedores, de feiras anuais e de forais dados por D. Sancho I. E, mais tarde, cidade de teimosos. Gente que aprendeu a fazer muito com pouco e que, por isso mesmo, não gosta de favores nem de histórias mal contadas.

Mas há outra Covilhã que nem sempre entra nos discursos. A que perdeu fábricas sem ganhar empregos. A que viu o comboio deixar de parar, a lã dar lugar ao betão e os jovens a sair pela porta pequena, os que podiam. A que se enche de orgulho nos discursos, mas às vezes se esvazia nos atos.

Agora, 155 anos depois, talvez valha perguntar: o que quer ser a Covilhã? Cidade-fábrica não é. Cidade universitária, talvez. Cidade multicultural, em crescimento. Cidade com memória? Esperemos. Porque há muito por contar e por cuidar. A Real Fábrica de Panos é museu, a Universidade da Beira Interior ocupa antigas fábricas e transforma-as em conhecimento. Mas o que fazemos nós com esse passado?

Foi na biblioteca da Escola Secundária da Quinta das Palmeiras que conheci o senhor Paulo Jesus, cujo blogue Cidade da Covilhã tanto me ensinou. Cito-o aqui como memória viva e como inspiração. Ele recorda-nos que esta cidade já foi capital do reino, que aqui se fizeram panos finos, e que dos seus trilhos saíram missionários, cosmógrafos, mártires e comerciantes. E lembra-nos também que esta cidade, tantas vezes esquecida, tem o dever de se lembrar a si própria.

Não é apenas um aniversário. É um espelho. E, como qualquer espelho, pode ser cruel. Mas talvez ainda vá a tempo de refletir. E de reencontrar o fio da meada. Parabéns, Covilhã!

Docs de apoio/Websites:
https://www.cm-covilha.pt/?cix=820&tab=792&curr=813&lang=1

https://cidadedacovilha.blogs.sapo.pt/2711.html

Teresa Santo. (2010).COVILHÃ- Paisagem Industrial. Dissertação de Mestrado Integrado em Arquitectura

Sugestões deste mês: Conferência para famílias, no dia 20 de outubro, no Museu dos Lanifícios. Informação em breve no website do Museu.

Orquestra de Jazz de Espinho & Mário Delgado – no dia 11 de outubro no Teatro Municipal da Covilhã

Esquerda e Direita: Guia Histórico Para o Século XXI – Rui Tavares

Outubro, 2025 Romeu Curto

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