Editorial de Luís Batista-Martins: A Praça na Praça

A 27 de junho de 2013 sugeri aqui (ointerior.pt/arquivo/a-praca-na-praca/) a aquisição pela Câmara da Guarda das casas do quarteirão dos Paços de Concelho (entre a Praça Velha e a Rua Sacadura Cabral) e a implantação de um espaço comercial e de lazer, com animação cultural e social (na altura houve quem achasse a ideia esdrúxula e estapafúrdia, mas passados poucos anos a Câmara comprou as casas devolutas e apresentou solenemente o projeto do “Solar dos Sabores” – o nome não é meu, nunca daria ao projeto um nome tão pindérico, mas o conteúdo-base, a ideia, é minha… ainda que a opção tenha sido minimalista em relação ao conceito que eu cogitara).
Escrevi então, mais do que uma vez, que «é urgente encontrar opções que minimizem o impacto negativo que a pedonalização da Praça teve na vida dos lojistas da zona velha». Deixei uma sugestão, pouco relevante (e que então apresentei sem sucesso à APGUR e à ACG): «Impulsionar “a PRAÇA na PRAÇA” – isto é, levar de novo para a Praça Velha o mercado das frutas e dos legumes, do artesanato e das coisas da terra, das pessoas da aldeia a venderem às pessoas da cidade, como ocorreu ali até ao final do séc. XIX». Posteriormente, e disso demos conta neste jornal nas edições seguintes, e porque vivíamos em época pré-eleitoral, como agora, falei sobre o assunto com autarcas e candidatos à autarquia (ver, por exemplo: ointerior.pt/arquivo/procura-se-nova-vida-para-a-praca-velha/).
Ficou o desafio e a sugestão. “A PRAÇA na PRAÇA” não ganhou asas porque a falta de ambição e visão dos nossos políticos tem sido quase sempre castradora das utopias e vontades dos guardenses. Apesar de, em 2013, a candidatura de Álvaro Amaro ter ostracizado a nossa sugestão, agradou-me ver como discretamente se focaram na ideia, com nuances, como se fosse sua. Não importa. O importante é que a ideia foi fazendo o seu caminho… A sugestão que há 12 anos apresentei estava muito próxima daquilo que a Câmara da Guarda depois projetou e designou de “Solar dos Sabores”, uma “praça” de produtos endógenos, de provas e sabores, no interior do edificado. Uma dúzia de anos depois, finalmente, foi lançado no dia 22 o concurso público para a reabilitação de três imóveis contíguos à sede da CIMRBSE por três milhões de euros para instalar, no rés-do-chão, o “Museu dos Sabores da Beira Interior” – o nome continua a ser pretensioso, mas é exequível e encerra um propósito ambicioso. Esta pode ser, efetivamente, a primeira opção séria para a revitalização da Praça Velha e do Centro Histórico da Guarda.
Recordo, até porque não basta reabilitar as casas, que a minha sugestão para dinamizar o centro da cidade passa também pela instalação semanal do mercado de rua, com elegância e simplicidade, impulsionando “a PRAÇA na PRAÇA” – isto é, levar de novo para a Praça Velha o mercado das frutas, legumes e flores (visitem por exemplo a “praça da fruta” de Caldas da Rainha). Pode não ser uma proposta grandiloquente, nem “modernaça”, mas é, tenho a certeza, a melhor alavanca para dar vida ao Centro Histórico da Guarda (imaginem: à quarta-feira e ao sábado, por exemplo, entre as sete da manhã e o meio-dia, colocando bancas devidamente acondicionadas por toda a Praça Velha, com harmonia e sabor a tradição, hortaliça do Mondego, facas do Verdugal, cestos de Gonçalo, castanhas de Videmonte, batatas de Valhelhas, etc, e pessoas, muitas pessoas a vender e a comprar…).
As boas ideias brotam e ficam… há ideias óbvias e simples que podem mudar uma cidade.

Sobre o autor

Luís Baptista-Martins

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