Opinião de João Coelho: A Aposta Americana

Escrito por João Coelho

Em cinquenta e um anos de existência, a Microsoft nunca tinha pedido a ninguém que se fosse embora com um cheque na mão. Pediu há dias. O programa de reforma antecipada voluntária abrange sete por cento dos trabalhadores americanos. No mesmo dia, a Meta comunicou que oito mil empregos desaparecem a 20 de Maio. Nenhuma está em dificuldades: a Meta fechou 2025 com duzentos mil milhões em receita e sessenta mil milhões em lucro, e a Microsoft caminha para o melhor ano da sua história.

Tem-se lido isto como mais um sinal de que a inteligência artificial destrói empregos. Dizem outra coisa: estão a converter salários em investimento. As quatro grandes subiram o investimento previsto: a Microsoft e a Alphabet para cento e noventa mil milhões em 2026, a Meta até cento e quarenta e cinco. Somando a Amazon, as quatro investem setecentos e vinte e cinco mil milhões em 2026, quase o dobro de 2025. A Alphabet acrescentou que 2027 será ainda maior. É o maior ciclo de investimento empresarial do século. A própria Meta diz precisamente isto: as saídas pagam os investimentos. A cada empregado que sai corresponde um certo número de horas de processador que entram.

Isto é uma aposta, e é útil chamá-la pelo nome. Há um precedente. Entre 1998 e 2001, as telecoms americanas investiram quinhentos mil milhões em fibra ótica à espera de procura que tardou. Grande parte faliu antes do retorno. A fibra foi comprada a saldo pela Amazon, Google e Facebook. Os acionistas das telecoms pagaram a infraestrutura da internet sem ver um dólar do lucro. A escala atual é maior, o modelo de retorno mais incerto.

A escala é o problema. A OpenAI comprometeu-se com 1,4 biliões de dólares em infraestrutura, contra vinte e cinco mil milhões de receita anualizada. Cinquenta e seis vezes. Projeta queimar duzentos e dezoito mil milhões em caixa até 2029, mais do que Uber, Netflix e Tesla juntas antes de darem lucro. Há dias, o Wall Street Journal revelou que falha metas de vendas e que a diretora financeira teme não conseguir pagar a aposta. A Anthropic, agora líder em receita, segue compromissos similares. Os investidores são as vendedoras: NVIDIA, Amazon, Microsoft. O dinheiro circula. A receita ainda não.

Para a Europa, a reação adequada é a cautela. Bruxelas regulamenta o que não se constrói cá; Lisboa capta migalhas com incentivos fiscais. Ambas partilham o mesmo erro: assumir que o americano é o único modelo. A China escolheu outro: treinou um modelo competitivo por uma fração do custo, com chips piores e menos capital, apostando em eficiência. Quem paga primeiro a infraestrutura raramente capta o retorno.

Se vingar, ganham as quatro ou cinco empresas que sobreviverem. Não ganha o emprego qualificado prometido, nem a Europa. Se falhar, a Europa também não fica em vantagem: ficou apenas fora de um ciclo sem alternativa construída. A inteligência artificial continuará a melhorar. A pergunta é quem paga a festa, e em nenhum cenário a Europa fica entre os convidados.

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