Editorial de Luís Baptista-Martins: Voltar ao comboio

Andar de comboio faz parte da minha vida. É o meu meio de transporte favorito. Aquele que me levou onde sempre quis ir e o que me serve nas minhas necessidades e deslocações. O comboio sempre foi o meu mundo e sempre me deu mundo.
Natural de Vila Franca das Naves, o comboio sempre me ajudou a sonhar. O meu mundo era ali, mas podia ser em qualquer outro lugar, desde que tivesse comboio.
Nos anos oitenta, adolescente, com os colegas, podia ir tomar café à Guarda e voltar; pagar o bilhete ou esconder-me do “picas”; ir a Coimbra conviver com os mais velhos e regressar depois de uma noite na Queima. Podia ir até Santa Apolónia, ver o Tejo e voltar no mesmo dia. Subir ao “Sud-Express”, esse excelso pouca-terra que carregou milhares de emigrantes até Hendaia ou Paris, conviver com as francesas, que liam Proust ou Simone de Beauvoir, olhar os holandeses cabeludos que faziam “Interrail”, ver as suecas altas e louras que não percebia, os alemães ruidosos e grandes que não se lavavam, enquanto o “Sud” esperava na estação que o “rápido” passasse. O meu mundo… era o mundo. Acreditem, foi assim que descobri Sartre e o existencialismo. E foi assim que cedo percebi que nunca iria viver num local sem comboio – não ia a Trancoso, nem podia ir a Lamego ou a Viseu, sítios isolados, sem comboio e sem mundo… o meu mundo!
Entretanto, o mundo pula e avança, como diria Gedeão, e o comboio foi perdendo importância entre nós. A modernização de Portugal com dinheiros da Europa passou pelo betão e o alcatrão. Cavaco liderou dez anos de revolução económica e social, até cultural, mas destruiu a agricultura e os comboios. Portugal nunca mais será o mesmo. Moderno e europeu, q.b., mas taciturno e invejoso como nunca, o novo-riquismo passou a ser filosofia nacional e todos viajamos de carro para exibir o vácuo do sucesso do povo. Os carris foram arrancados por todo o lado, as linhas deram lugar às autoestradas, os comboios internacionais sucumbiram, o “Sud-Express” Lisboa-Paris acabou, o “Lusitânia Comboio Hotel” foi suspenso e o país ficou isolado, orgulhosamente só, como sempre… Portugal é o único país da Europa sem ligações internacionais ferroviárias. E só o Chipre e Malta têm menos comboios do que nós, duas ilhas no Mediterrânio onde não há ferrovia…
Como aqui escrevi (https://www.ointerior.pt/opiniao/editorial-de-luis-baptista-martins-os-caminhos-de-ferro-em-portugal-um-pais-a-duas-velocidades/) a Linha da Beira Alta esteve fechada durante três anos para requalificação (sem qualquer respeito pelos utentes e pelas populações). Gastaram-se mil milhões, mas sem ganhos para o cidadão – continua a não haver ligação a Espanha, as viagens demoram o mesmo e as carruagens são velhas. E apesar dos milhões gastos na construção da “concordância” da Pampilhosa, as disrupções operacionais e o adiamento de reestruturação dos horários pela CP impedem a implementação efetiva e contínua de ligações diretas da Guarda ao Porto (como há 100 anos, o viajante tem de ficar apeado na estação da Pampilhosa, deserta, à espera de ligação na Linha do Norte).
Por tudo isto, finalmente, a Assembleia Municipal da Guarda despertou da letargia em que toda a Beira Alta tem vivido, para reivindicar um comboio direto da Guarda ao Porto – que pode servir a população dos distritos da Guarda, Viseu e Castelo Branco. E também as empresas – a requalificação da Linha da Beira Alta foi feita a pensar na economia, na duplicação de comboios de carga, mas também tem de servir a mobilidade das pessoas. Num tempo em que tantos iluminados defendem a utopia da alta velocidade entre Aveiro, Viseu e Salamanca (por Vila franca das Naves, sem parar, porque a orografia não permitirá que o TGV suba à Guarda) era bom que pudéssemos ter um comboio direto do Porto a Vilar Formoso e que, depois, chegasse a Salamanca e a Medina del Campo, ligando-nos a toda a rede do AVE espanhol e à Europa. Eu, como Eça de Queiroz, só quero poder voltar a ir de comboio até Paris – já não teria de ouvir os gritos do chefe Pimentinha, da “Cidade e as Serras”, mas teria o deleite de entrar na cidade luz pelo coração de Montmartre.

Sobre o autor

Luís Baptista-Martins

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