Era dos livros que o sentimentalismo, o apelo à emoção, não faltasse em qualquer discurso eleitoral que se prezasse de o ser. Qualquer político sabia que, por mais estridente e enfático que o seu discurso fosse, para seduzir a plateia, antes de mais, tinha de evocar os próprios mentores, amigos famosos e colegas que, por isto ou aquilo, se tivessem destacado. Nunca se esquecia de falar do seu professor que tinha chegado a CEO de uma empresa muito grande e muito internacional, do colega que chefiava um qualquer organismo muito importante e, como não podia deixar de ser, muito internacional. Daí até às próximas eleições, os que conseguissem ser eleitos, pouco ou nada teriam para fazer: ficavam autorizados a tutear ministros e generais e os funcionários tratá-los-iam respeitosamente por doutor ou doutora, consoante o caso, sempre que lhes dessem conta de qualquer assunto.
Era dos livros.
Hoje, a julgar pelos discursos de alguns dos atuais políticos, parece que está a deixar de ser. Tanto assim será que, tarda nada, o tom paternalista, oco e solene, com que estes políticos pedem aos seus eleitores que vão mas é para a rua chamar nomes aos filhos dos outros, levará o cartoonista, que um dia disfarçou um lobo de cordeiro para o pôr a falar ao rebanho, a ter de disfarçar um cordeiro de lobo para o pôr a falar à alcateia, porque a coisa está mesmo virada ao contrário. É que, mesmo sem se conseguir apurar se se extinguiram primeiro as fofinhas plateias ovinas ou os alegados zagorros que as iludiam, já ninguém contestará que a coisa agora mudou. As plateias de ovelhas deram em ser substituídas por plateias de lobos. Abrutalhados e prontos a abrutalhar a vida de quem quer seja, incluindo a própria. Tanto assim é que são cada vez mais os que, não estando interessados em promessas de políticas que lhe melhorem a vida, preferem as promessas políticas que tornem pior a vida de alguém. Entre a promessa política de uma vida decente, com acesso digno a saúde e educação, preferem a promessa de proibir uma coisa qualquer, a umas pessoas quaisquer, mesmo que nem aqui vivam ou sequer por aqui passem. Convencidos de que só estão a escolher políticas para os outros, entre promessas de progresso e retrocesso, preferem as segundas, entre promessas de liberdade e repressão, preferem as últimas. Realidade que, teremos de assumir, nos estará a deixar cheios de saudade das antigas ovelhinhas e da sua fofice. Que mais não seja pelo facto de sabermos que em qualquer rebanho, ao contrário do que acontece com os brutos, que são todos da mesma cor e só vêm à frente brutalidades para fazerem, além da ronhosa, evidentemente, tinha também a ovelha negra para desafiar a raça a ser cada vez melhor. Ou, pelo menos, para a desafiar a construir discursos políticos dos livros. Dos que apelavam ao melhor da humanidade, em vez de só ao “proíbam-se, expulsem-se, prendam-se” e outros que tais.


