1. Como é sobejamente conhecido, o Dr. Garcia Pereira foi, em tempos, destacado dirigente do MRPP. Entretanto, em 2017 saiu do partido, devido à «divergência fundamental» com a sua linha política. Mas como acontece com a maioria dos comunistas, nas suas diferentes declinações, o sectarismo e o ódio à liberdade nunca saem de dentro deles, mesmo quando «divergem». O Dr. Garcia Pereira é um advogado combativo, notabilizado na área laboral. No entanto, se defende os direitos alheios, ignora os direitos fundamentais dos seus pares. Um clássico nas organizações comunistas, como é sabido. Sucede que o Dr. GP, nas últimas eleições para os órgãos da Ordem dos Advogados, foi apoiante do actual Bastonário, Dr João Massano. Alguém próximo das grandes sociedades e afecto ao PSD. E que tem ignorado as principais reivindicações da classe, no domínio previdencial, procuradoria ilícita e tabela de remunerações no apoio jurídico. No entanto, apesar de o TC se ter pronunciado pela inconstitucionalidade dos escalões remuneratórios da CPAS, nem uma palavra sobre o assunto se ouviu ao Dr. GP. Antes instalado nos faustosos gabinetes da sociedade de que foi senior partner e agora auferindo uma reforma milionária, subsidiada pelos muitos advogados no activo que fazem enormes sacrifícios para pagar as contribuições cobradas pela CPAS. Eis o Dr. GP: célere a apontar a virtude aos outros, mas reticente em mostrar a sua. Agora, a sua cruzada é a ilegalização do Chega. Comparando o Chega às hostes nazis, nas ruas, lutando à bastonada contra a frágil democracia de Weimar, nos anos anteriores a 1933. Claro que o Dr. GP não perguntou a nenhum do milhão e meio de eleitores que votaram no Chega se têm bigode aparado, fardas escondidas, bastões, um exemplar do “Mein Kampf” e cruzes suásticas no sótão, ou na garagem. Nem lhe passa sequer pela cabeça questionar o porquê do crescimento do Chega. É mais fácil fazer analogias sem sentido e negar a realidade. O Dr. GP, como bom comunista, é pois adepto do revisionismo histórico. E à boa maneira maoista, se alguém não pensa como ele, o melhor é proibir, silenciar, reprimir. E depois mandar esses «inimigos do povo» para campos de reeducação. A livre iniciativa política, a liberdade de expressão e o pluralismo são conceitos estranhos ao Dr. GP. E em matéria de «discurso de ódio», só é permitido o que emanar da «justa luta das classes trabalhadoras», como se depreende de diversos cartazes do PCTP/MRPP.
2. Circulou abundantemente o mantra de que seria contranatura alguém com posses declarar-se de esquerda. Até há cerca de 60 anos, a tese teria fundamento. Só que as maravilhas do estado social, as oportunidades do capitalismo popular, as benesses do bem-estar e da mobilidade social, vieram alterar as leis do jogo. A frugalidade, a contenção do consumo, a recusa do hedonismo, passaram a ser vistas com desconfiança pela nova velha esquerda, maravilhada com a abundância e o conforto. Pasolini, nos seus escritos, foi dos mais lúcidos na denúncia deste paradoxo. Depois, com a “esquerda caviar” e a corrupção que grassou nos partidos socialistas europeus, foi o descalabro. A riqueza má passou a ser unicamente a que dispensa a promiscuidade com o Estado. Curiosamente, assistimos agora à disseminação de uma tese inversa, mas reflexa. Consiste no postulado de que os pobres não podem ser de direita. E se o forem, são uma horda desclassificada de ressentidos, que votam no Chega. Ou seja, o ressentimento que está na base do populismo assistencialista da esquerda radical é legítimo. Mas o ressentimento que atribuem às massas que votam no populismo do Chega é pecaminoso. Só que, enquanto o primeiro nasce do acesso desigual a recursos e rendimentos, o segundo é alimentado pela insegurança, a impunidade das oligarquias e as exclusões geográficas, digitais, etárias ou de outro tipo.
3. Um anúncio de uma instituição de crédito garante que determinado produto financeiro é a oitava maravilha do mundo. Pelo caminho, aparece algo como “não é lá muito poético, mas o que interessa?” Sim, dinheirinho no bolso, vida larga “e então, algum problema sr. agente?” Se calhar, estão à espera que o contemplado se ponha a recitar Jonh Donne, ou e.e.cummings!!! E com inteira razão! Pelo menos, até chegar o relaxamento na prestaçãozinha, o primeiro aviso, o vencimento da totalidade com juros, o segundo aviso de uma gestora de créditos agressiva, o plano de pagamento que falhou e a inevitável execução. Neste caso é melhor, sim, pôr a poesia de parte. Ocorreu-me, no entanto, algo diverso. Há uns anos atrás, a publicidade não precisava de justificar aquilo que quer vender. Agora, a pressão do politicamente correcto obrigou a que a lógica impiedosa do mundo financeiro tenha que ser adocicada ou, pelo menos, sujeita a um crivo moral que a absolva. Neste caso, é a poesia que faz esse papel. Tomada como uma versão light e descomprometida de um ethos que, embora invocado, está aquém da satisfação imediata de uma necessidade inquestionável, que o produto X vai suprir. Ou seja, reconhece-se que a ímpia materialidade do dinheiro carece de uma validação prestigiada – a poesia – mas que, na prática, dela pode perfeitamente prescindir. Isto é, como quem diz, “deixa lá a poesia e tem mas é juízo!”
* No calendário vegetal celta, significa “Junco”
** O autor escreve de acordo com a antiga ortografia


