A Perturbação do Espetro do Autismo (PEA) ainda desperta receio e incerteza, mas entendê-la ajuda a transformar a preocupação e a dúvida em cuidado.
A PEA é uma condição do neurodesenvolvimento em que há dificuldades persistentes na comunicação e interação social, associadas a padrões restritos e repetitivos de comportamento, interesses ou atividades. Cada criança autista é única, com a sua forma particular de sentir, aprender e expressar-se.
Um diagnóstico atempado é essencial para um bom prognóstico pois permite iniciar precocemente intervenções que ajudam na comunicação, socialização e autonomia, fazendo uma grande diferença no futuro da criança.
Durante o primeiro ano de vida, o bebé pode não procurar o olhar dos pais, sorrir em resposta a estímulos, vocalizar, demonstrar prazer, reagir quando é chamado, interessar-se por pessoas e pode ainda demonstrar hiper ou hiporreatividade sensorial (aos sons, luzes e texturas).
Uma criança com PEA pode não dizer palavras isoladas até aos 16 meses ou não formar frases simples até aos 2 anos e é comum a ausência de comportamentos de partilha.
O comportamento repetitivo e a resistência à mudança de rotinas torna-se cada vez mais evidente e as crianças com PEA podem preferir girar rodas de um carrinho ou alinhar objetos repetidamente em vez de participarem em brincadeiras que implicam a interação. As diferenças sociais intensificam-se e crianças com PEA geralmente isolam-se, brincam sozinhas e têm dificuldade em entender regras sociais. O discurso, quando presente, pode ser monótono ou repetitivo e algumas desenvolvem interesses restritos e específicos (como números, dinossauros ou mapas) e podem apresentar movimentos estereotipados como balançar o corpo, bater as mãos ou girar sobre si mesmas.
A PEA é uma condição que não tem cura. Resulta de alterações no desenvolvimento e funcionamento cerebral, influenciadas por fatores genéticos e ambientais. É importante saber que não tem origem em falhas na educação, falta de afeto ou traumas emocionais.
O papel dos cuidadores é insubstituível. São eles que percebem pequenas mudanças diariamente e a partilha dessas observações com o pediatra é essencial.
A escola deve desempenhar um papel importante na inclusão, com estratégias adaptadas às necessidades, interesses e potencialidades de cada criança.
Há ainda um longo caminho a percorrer no combate ao estigma face à PEA e a sociedade só ganha quando acolhe a diversidade e aprende sobre empatia e respeito.
Falar de autismo é falar de coragem e amor. Coragem para agir, procurar ajuda e dar o primeiro passo. Amor de quem observa, compreende, aceita e cuida. Cada gesto de paciência e cada intervenção precoce podem transformar e melhorar o futuro das crianças com PEA.
* Pediatra no Hospital CUF Viseu
N.R.: Esta secção é uma colaboração mensal do Hospital CUF Viseu, na qual os seus profissionais partilham conselhos e dão dicas sobre saúde.


