O autor destas linhas recebeu um email da redacção deste jornal, com a mensagem “estamos de volta ao trabalho e a contar com a crónica”. Como a pessoa que escreve a crónica estava em viagem, respondeu apenas “e contam bem”, e decidiu ocultar as reflexões metanarrativas na resposta e trazê-las, em vez disso, para aqui.
Ora, quem escreve estas linhas não está de volta ao trabalho porque, como dizia Cesare Pavese, trabalhar cansa, e escrever uma vez por semana é um descanso. E também não está de volta porque nunca foi embora. Mesmo que fisicamente andasse pelas orlas do Báltico, filosoficamente, nunca foi embora, mas também nunca aqui esteve.
O ser humano que tecla estas palavras no computador tem dois braços e dez dedos (se os usa correctamente é uma questão que não é para aqui chamada). O narrador das crónicas é uma invenção sua. Sua, do teclista, e sua, de quem lê. (Gosto muito desta polissemia dos determinantes e pronomes possessivos. O escritor tem dias.)
Os New Order cantavam, no mesmo ano em que derrubaram o Muro de Berlim, assim: «the picture you see in no portrait of me / it’s too real to be shown to someone I don’t know» [a imagem que vê não é um retrato de mim / é demasiado real para mostrar a alguém que não conheço]. É exactamente o que acontece aqui. A imagem e o nome que acompanham a crónica e as palavras que a compõem são demasiado reais para realmente existirem na vida real.
Confuso? Pois, a tal canção dos New Order continuava assim: «and it’s driving me wild / it makes me act like a child» [E está a deixar-me maluco / faz-me comportar como uma criança]. É, portanto, tempo de passar à página seguinte. Até porque o rapaz que usa o computador para escrever tem, como também Cesare Pavese intitulou outro livro, o ofício de viver.
* O autor escreve de acordo com a antiga ortografia


