Somos todos escravos do tempo. Ainda nem nascemos e já estamos destinados a um dia perecer. Como se isso não bastasse, ainda nos esperam as rotinas. Essas correntes monótonas e repetitivas que impedem a concretização da verdadeira liberdade. Os dias sucedem-se e os anos vão-se acumulando. A dada altura, a promessa de uma vida livre torna-se uma miragem e, mais tarde, uma meta impossível de alcançar.
Só quando surge uma nova paixão ou perdemos alguém que amamos é que somos capazes de nos abstrair momentaneamente dessa servidão intangível. O tempo suspende-se. Parece que tudo o resto perde importância. Saímos, por breves instantes, da encruzilhada de rotinas que nos esmaga. O denominador comum deste estado é o amor, seja no êxtase do encontro ou na mágoa da perda.
A linguagem do amor é a poesia. Por isso, os poemas são, simultaneamente, a frequência para nos sincronizarmos com um sentimento maior e a ponte para atravessarmos momentos de tristeza e de desespero. Tanto faz que os versos se gerem em nós ou nos cheguem de autores que nem conhecemos. É apenas quando nos encontramos nesse estado que somos capazes de nos transcender.
A física pode ser a ciência rainha, mas a poesia é a fonte primordial de criatividade e liberdade. E é ela, e não a religião ou a mitologia, que melhor preenche os espaços onde a ciência não chega. Só a poesia tem a verdadeira capacidade de nos confortar no momento da despedida e de nos elevar na madrugada de um novo amor, sendo que o faz sem a pretensão de dar sentido à vida, ao mundo ou ao que quer que seja.
Se ao menos este estado poético pudesse durar para sempre…
Poderíamos viver como o “dandy”, cultivando a nossa imagem enquanto única resistência à vulgaridade do mundo. E por que não como o “flâneur”, espelhando graciosa e melancolicamente tudo o que o mundo ao nosso redor nos transmite? Ou então como o esteta, divinizando o “eu” acima de tudo e moldando o mundo à nossa medida. Melhor ainda, como o herói romântico, que abdica de si para se consumir numa causa maior, mesmo sabendo que nela se poderá vir a perder. Talvez até como o decadentista, que se entrega esplendorosamente à luxúria e ao prazer, plenamente consciente de que está a transformar as linhas das suas mãos em caminhos de autodestruição.
Se esse estado não puder durar para sempre, então talvez seja mesmo uma pena, como escreveu Kafka, que o mundo não acabe amanhã. Porque se assim fosse, poderíamos amar sem escrúpulos, medo ou restrições. Tudo menos permanecermos neste tédio agonizante, alimentado por objetivos fúteis. Mesmo não sendo possível nada disto, tenhamos, pelo menos, a capacidade de reconhecer que uma vida sem poesia é uma fração de existência perdida.
Há muito que nos devíamos ter apercebido de que só a poesia nos pode salvar. Não das doenças e das guerras. Para isso há médicos e diplomatas. Nem da pobreza ou do crime. Para isso há sociólogos e criminologistas. Nem das crises financeiras ou ambientais. Para isso há economistas e cientistas. Mas desse fastio insuportável que é a própria existência.
Pedro Fonseca (pedrorgfonseca@gmail.com)



