Entrei na carrinha nervoso, com os pés assentes no chão. Tremíamos, talvez do nervosismo, talvez do frio que o sol, ainda pouco presente, nos proporcionava. Isto enquanto planeávamos aquilo que seria a nossa primeira
participação no Parlamento dos Jovens (Círculo Eleitoral da Guarda), realizada no passado dia 16 de março, em Trancoso. Tínhamos tudo para alcançar a Sessão Nacional: garra, conhecimento político e conteúdo.
As expectativas eram bastante reduzidas, mas a convicção era genuína. A organização recebeu-nos de forma extremamente exemplar, com direito a banquete e tudo. No entanto, a partir do momento em que entrámos no local da sessão [Convento de São Francisco], senti um misto inexplicável de emoções, sendo elas a admiração pelo espaço e pela sua magnificência, mas também um certo desconforto, como se algo estivesse prestes a não correr como esperado.
Rapidamente percebi que a nossa escola não era particularmente bem recebida, uma vez que estaria presente pela primeira vez em bastante tempo numa sessão distrital. Ao longe, ouvi: “Vai ganhar Gouveia, ganha sempre”. O
comentário despertou em mim algum receio e até a ideia de que ia disputar uma escola com uma capacidade muito superior de influência, instalada há muito no espaço. Decidimos aproximar-nos. Mostraram-se inicialmente simpáticos e disponíveis. Pensei que a ideia generalizada poderia estar exagerada. Essa perceção viria brevemente a alterar-se.
Subi ao púlpito para apresentar o nosso projeto de resolução. Fiz um discurso breve, cometi pequenas falhas por nervosismo, mas fui bastante aplaudido e ganhei confiança. Durante a primeira votação, começámos a notar algo perturbador. Algumas decisões pareciam resultar não da qualidade das propostas, mas de uma lógica de reciprocidade entre escolas: “Eu votei em vocês porque vocês votaram em nós”. Surgiu então a primeira dúvida séria quanto à existência de uma verdadeira liberdade de voto.
Foi no trabalho de grupo que essa dinâmica se tornou mais evidente. Certas decisões foram assumidas sem consenso; tentativas de reformulação encontraram resistência; a escolha do porta-voz surgiu sem consulta ao grupo. Numa democracia funcional, a divergência é integrada. Aqui, era tolerada na forma e ignorada no fundo. Na fase final de votações, optei por votar contra algumas medidas e abster-me noutras. A decisão gerou reações negativas por parte de alguns participantes, o que, naquele momento, reforçou a minha posição em vez de a abalar.
Terminei a sessão com uma certeza incómoda: uma iniciativa com tanto potencial para promover o pensamento crítico e a participação cívica pode, em certos contextos, ser condicionada por dinâmicas informais que se afastam do
ideal democrático. Aquilo que deveria ser um espaço aberto e plural arriscava transformar-se numa estrutura onde os resultados tendem a repetir-se, influenciados por relações e estratégias previamente estabelecidas, vícios estes que não são exclusivos do Parlamento dos Jovens.
A democracia não é apenas um mecanismo de votação. É uma cultura, seja ela de escuta, de deliberação genuína, de abertura à dissensão. Quando essa cultura não se pratica nos espaços criados para a ensinar, o que estamos realmente a ensinar aos nossos jovens?
Nietzsche escreveu que um político divide os seres humanos em duas classes: instrumentos e inimigos. Naquele dia, perceber em qual delas me encontrava foi, talvez, a lição mais honesta que o Parlamento dos Jovens me deu. Resta a cada um decidir se prefere deixar-se conduzir, ou questionar e avançar por si mesmo. Essa escolha, afinal, é o princípio de qualquer consciência política.
E é a partir dessa escolha que se forma a democracia e os verdadeiros políticos da mesma.
Bernardo Duarte (estudante e presidente da concelhia da Juventude
Popular de Aguiar da Beira)



