Não queremos depósitos de vidas. Queremos lugares para viver.

Escrito por Ricardo Antunes

Durante muito tempo, aceitámos a ideia de que um lar de idosos era apenas um local para colocar alguém quando a vida já ia no fim. Um sítio seguro, com cuidados básicos, comida a horas, medicação certa e alguma companhia. Mas, à medida que o tempo passa, percebemos que isso não chega. Que nunca chegou. E que, no fundo, todos sabemos disso.
As gerações que agora se aproximam dessa fase da vida, e todas as que hão de vir, já não se revêm nessa ideia. Não querem armazéns de gente. Não querem salas silenciosas onde se vê a televisão sem falar com ninguém. Não querem rotinas vazias de sentido. Querem viver. Querem sentir-se parte de algo. Querem continuar a crescer, mesmo com rugas e cabelos brancos.
E têm razão.
É tempo de criar espaços diferentes. Mais do que edifícios com quartos e refeitórios, importa dar vida a comunidades autênticas. Lugares onde cada pessoa possa escolher participar em atividades, rir, aprender algo novo, cuidar de um jardim, conviver com crianças, ter conversas boas, momentos de silêncio e momentos de festa. Onde se possa tratar de hortas, passear em grupo ou sozinhos, e sempre contar com um lugar seguro e com apoio ao qual regressar. Lugares onde a vida continue com dignidade, com liberdade, com sentido.
Mas, para isso acontecer, é essencial mudar a forma como vemos esta realidade. A sociedade deve deixar de olhar para os lares como um mal necessário e passar a vê-los como uma extensão natural da vida. Uma extensão com qualidade, com beleza, com alma. Porque a verdade é que todos nós podemos vir a precisar de um lugar assim. E, se for o caso, queremos encontrar portas abertas e corações disponíveis, não muros frios nem esquecimento.
Este é um assunto que nos diz respeito a todos. Porque envelhecer é um privilégio. E dar aos nossos mais velhos um lugar digno para viver é uma responsabilidade que não pode continuar adiada.
Quem governa tem de agir. Quem decide políticas públicas tem de ouvir quem vive e trabalha nestes espaços. Quem está de fora tem de deixar de virar a cara. E todos nós, mais cedo ou mais tarde, temos de olhar para isto de frente. Porque, no fim, quando chegar a nossa vez, o que vamos encontrar será exatamente aquilo que hoje formos capazes de construir.

*Diretor Geral da CERCIG

Sobre o autor

Ricardo Antunes

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